Niccòlo Nasoni: “o arquiteto do Porto”

Este ano cumprem-se 250 anos da morte de Niccòlo Nasoni. O arquiteto italiano é autor de várias obras icónicas da Cidade do Porto, como a Torre dos Clérigos, a fachada da Igreja da Misericórdia, o Palácio do Freixo e a Quinta da Prelada. No entanto, apesar de a ele se dever o ex-libris da cidade, a homenagem prestada pelas suas obras foi quase inexistente. Neste post temos como objetivo prestar o nosso tributo de agradecimento pela beleza que trouxe à nossa cidade Invicta.

Retrato de Niccòlo Nasoni

Niccòlo Nasoni é uma figura incontornável na história do Porto e, de certo modo, de Portugal. Os trabalhos sobre a sua vida e obra são, como refere Cristina Vaz, geralmente muito breves no que respeita ao pintor Nasoni e quase se omitem os acontecimentos em Malta, que o trouxeram ao Porto em 1725.

Nasoni nasceu em 1691 em San Giovani Valdarno de Sopra, então território florentino em pleno período Barroco. Em Portugal, foi com D. João V que este movimento atingiu todo o seu esplendor. Reinando entre 1707 e 1750, sendo afortunado com o ouro proveniente, ao Magnânimo se deve, indubitavelmente, “o período onde a arte alcançou um espaço construtivo e gramatical substantivado num imenso número de edifícios religiosos e civis” (Mata, 2009: 227). O Barroco com a sua exuberância encontrou mestres e arquitetos à altura de interpretarem a sua linguagem intrínseca, na região Norte, para o granito de grão médio. O virtuosismo que outros conseguiram numa partitura, num retábulo outros conseguiram-no belo ordenamento paisagista.

Chegado ao Porto em 1725, a Invicta vive durante 40 anos do génio de Nasoni, cujo trabalho vamos percorrer. No entanto, antes de começarmos será importante dar a conhecer um pouco das influências do nosso artista.

Influências

Desde muito jovem Nasoni vai trabalhar para uma oficina em Siena onde aprende três disciplinas patentes em toda a sua produção: pintura, decoração e arquitetura. Foram, nesta época, seus mestres, o pintor Nasini, o arquiteto Franchin e Vicenzo Ferrati. “No seu percurso estão patentes as marcas da tradição Maneirista e Barroca dos italianos Buontalienti e de Pietro Cortona” (Borges, 1995: 28).

Aprendeu a pintar com um mestre local, Vicenzo Ferrati. Entretanto, em 1709, Nasoni acompanhou o seu mestre a Siena, para a realização de um fresco, aproveitando a influência do mestre para se insinuar no meio artístico local. Com efeito, “a vida profissional de Niccolò Nasoni começa no momento em que se transfere da cidade natal, demasiado pequena para a evolução do seu génio, para a renomada e mais acessível Siena. A cidade toscana, desde sempre lugar culto da arte, apresenta-se como uma rampa de lançamento para este jovem aprendiz, à procura de trabalho e de fama” (Tedesco, 2011: 42).

Quando Ferrati morreu, em 1711, Nasoni tornou-se discípulo de um pintor importante, Giuseppe Nasini (1657-1736), com quem trabalhou cerca de uma década, participando na pintura de frescos em Siena, Bolonha e Roma.

Ferrati e Nasini eram pintores de figura humana e os pintores trabalhavam geralmente em grupo, cada qual ocupando-se de áreas específicas da obra. Terá sido por esse motivo que Nasoni aprendeu a “quadrattura” em Bolonha, uma técnica de representação em perspetiva que intensificava a ilusão da profundidade, o “trompe l’oeil”. No entanto por detrás do pintor, revelou-se muito cedo o arquiteto, o criador de composições volumétricas com efeito cenográfico, teatral, ricamente decoradas, embora com dimensões e durabilidade muito longe da monumentalidade secular das grandes obras escultóricas: os famosos aparatos de arquitetura efémera – cadafalsos funerários, arcos triunfais, carros alegóricos para as celebrações e procissões típicas do Barroco.

Mais tarde torna-se membro do Instituto dei Rozzi, isso irá ditar “uma uma mudança substancial na vida de Niccolò Nasoni, pela quantidade de trabalho que lhe ofereceu e pela possibilidade de aprender, confrontar e colaborar com os homens que faziam parte desta instituição. O alto nível cultural que a caracterizava permitiu a Nasoni desenvolver o crescimento intelectual, participando ativamente na vida política e social da cidade de Siena” (Tedesco, 2011: 73). Como iremos ver, Niccolò ocupará um espaço relevante dentro da comunidade académica, como pintor quadraturista e como membro da equipa que geria a associação dos artistas, organizando festas e eventos, elegendo as várias figuras administrativas na congregação.

A descoberta de Nasoni

Em 1715 foi nomeado para Arcebispo de Siena Alessandro Zondadoro, tendo exercido o cargo até 1744, cabendo ao Instituto dei Rozzi, os preparativos para receber tão ilustre personalidade. O artista escolhido foi precisamente a Nasoni, que mostrou todo o seu talento cenográfico no arco triunfal de que foi encarregado de pintar em 1716.

Nasoni vai paulatinamente ganhando alguma notoriedade no domínio da arte efémera que desperta certa curiosidade nalgumas personagens influentes como o conde Francisco Picolomini que o recomenda a António Manuel de Vilhena que, ao que parece, terá conhecido em Roma, em 1723 que, no mesmo ano é eleito Grão-mestre da Ordem de Malta.

O salto de Roma para a ilha de Malta é imediato, cabendo ao ilustre mestre realizar a empreitada da pintura dos tetos dos três corredores principais do palácio do Grão-mestre, em La Valletta.

A arte de Nasoni seduz pela utilização da perspetiva a ilusão das formas e do espaço – criando a pintura ilusionista, usando a têmpera e a tela, dividindo a abóbada em panos tipicamente barroco (quadratura) que desapareceram. O seu trabalho encanta e é respeitado pelos frequentadores do palácio.

Em 1717, D. Tomás de Almeida foi nomeado arcebispo, partindo para Lisboa, deixando vacante a Sé portuense. A Sé foi entregue a D. Jerónimo de Tavora e Noronha, irmão de D. Roque de Távora e Noronha, vice-chanceler da Ordem de Malta e de D. Francisco de Távora, embaixador do Grão-mestre na corte de D. João V.

Para que o novo bispo do Porto colocasse a Sé ao seu gosto pessoal, o irmão recomendou-lhe o pintor Nicolau Nasoni que chega ao Porto em 1725, dando início a uma carreira de mais de 40 anos. Com efeito, “O Conde Henrique de Campo Belo antes, e Robert C. Smith depois, afirmam que a passagem da renomada ilha inglesa a uma das províncias de Portugal foi facilitada graças às relações entre o pintor e alguns Cavaleiros de origem portuguesa, presentes na zona de Castela, Leão e Portugal, uma das sete divisões que compunha a Ordem de Malta” (Tedesco, 2011: 226).

A obra em Portugal

“Nasoni começou a “nova vida” como mestre pintor das obras da Catedral, como confirma o registo datado de 3 de Julho de 1726” (Tedesco, 2011: 227). O artista estreia-se com as decorações das pilastras do coro, mais tarde com os frescos dos janelões da capela-mor e acabando com as decorações na abóbada e nas paredes da Sacristia. As pilastras são embelezadas com motivos florais, folhas de acanto, vasos e conchas inseridas entre as linhas arquitetónicas.

Nos frescos da Capela o motivo predominante é o clássico trompe l’oeil: a realização de janelas e portas que se abriam sobre outros ambientes, criavam uma sensação de profundidade nos espaços contraídos dos janelões. As decorações da Sacristia são de nível mais alto, com as paredes enfeitadas com motivos arquitetónicos e anjos contornados por festões, enquanto o teto é ornamentado pela habitua representação em perspectiva, aumentando a profundidade.

Para todas as composições é usada a tinta a têmpera, onde predominam o vermelho, o cinzento, o verde, o ouro e o roxo. O fim da atividade pictórica no complexo da Sé é datado de 28 de Setembro de 1737, dia em que se refere o último pagamento.

“Todavia, durante estes seis anos Nasoni não se limitou apenas aos trabalhos de pintura, tendo também produzido desenhos que serviram para projetos para construir estruturas, ainda hoje existentes, no complexo da Sé” (Tadesco, 2011: 229). Trata-se de elaborações para as duas portas da Capela-mor, o portal da sacristia e os ornamentos escultóricos do claustro gótico, com o estupendo cruzeiro posicionado no centro.

A partir de 1737 Nasoni está em Lamego, tendo pela frente a pintura de vastas superfícies na Sé.  “Mais uma vez, a condição de Sede Vacante causada pela morte do Bispo Nuno Alvares Pereira de Melo, deu ocasião para abrir o estaleiro com o fim de estruturar e inovar a igreja” (Tedesco, 2011: 229). O ciclo cobre as seis abóbadas das naves laterais, e as quatro da nave central, incluindo o coro. A linguagem predominante, já usada nos trabalhos na Catedral do Porto, é dada através da pintura ilusionista, emergida nos motivos florais, com o largo uso de elementos arquitectónicos como: janelas, portas, colunas, e misulas, para criar a sensação de profundidade. “Passados poucos anos – como confirma Smith – desenha a parte frontal em prata do Santíssimo Sacramento, realizado pelo dourador Domingos de Sousa Coelho” (Tedesco, 2011: 230).

Trata-se de uma obra reveladora de grande virtuosismo. As colunas salomónicas, balcões e abóbadas pintadas em perspetiva de acordo com a técnica da “quadrattura”, os anjos e a profusão de ornamentos ao gosto Barroco, conjugam-se em quadros vibrantes de luz e cor. O observador é induzido a olhar para além do teto, descobrindo espaços dentro de espaços e janelas onde é suposto existir uma barreira física – inspirando experiências espirituais.

Ainda em Lamego, realiza em 1738 um chafariz a Nossa Senhora dos Remédios da Catedral. No ano seguinte executa as decorações para a Igreja da Cumieira, na cidade de Santa Marta de Penaguião, hoje quase desaparecidas. Ainda no mesmo ano, são documentados mais duas intervenções, nomeadamente os frescos do Convento de Ferreirim, perto de Lamego, dos quais só temos a recordação e, finalmente, os painéis da Igreja de São Pedro de Tarouca.

Chegados ao ano de 1740, a figura de “Nasoni pintor” desvia-se de forma substancial, deixando mais espaço à atividade de projetista. A situação arrasta-se até 1750, ano em que são documentadas as duas últimas, até à data, intervenções pictóricas. A primeira refere-se à Igreja Ordem Terceira de S. Francisco no Porto, onde supervisiona a recuperação das pinturas do coro. Do mesmo complexo fazem parte outras pinturas situadas na sala da Secretária. Trata-se de dois escudos decorados com brasões na parte do frontão e afrescados no teto da sala. Não existem registos que possam confirmar a paternidade; todavia, o estilo é inconfundível e Smith atribuiu-os, para nós justamente, ao pintor Valdarnese. O segundo refere-se aos frescos que decoravam os tetos do Palácio do Freixo, infelizmente desaparecidos, devido às alterações que a estrutura foi sujeita ao longo dos anos.

“A passagem de pintor/decorador a arquiteto/projetista pode ser atribuída apenas a questões económicas, devido a uma maior oferta na planificação para a construção de edifícios e aparatos arquitetónicos do que a decoração pictórica” (Tedesco, 2011: 234). Será precisamente como arquiteto que “Nasoni passará à posteridade como génio do Barroco setecentista (…) com a construção da igreja e torre dos Clérigos que o artista deixaria, para sempre, o seu nome ligado à cidade (Mata, 2009: 229).

A ótima situação profissional que vivia, coloca-o na condição de artífice de uma obra colossal. Ele fica encarregue de planificar a realização da igreja do palácio e da torre por conta da Irmandade dos Clérigos, facto confirmado pelos membros que participaram na reunião do dia 31 de Maio de 1731, e da seguinte do dia 13 de Dezembro do mesmo ano, onde estavam presentes Dom Jerónimo de Távora Noronha Leme e Cernache e Niccolò Nasoni. A construção duraria até 1763.

A finalizar o nosso texto, uma breve nota sobre o final da vida de Nicolau Nasoni, que aparece envolto em grande mistério. Após a morte do seu mecenas, Dom Jerónimo,  a chama Niccolò Nasoni começa a esmorecer. As suas aparições são menos frequentes, e os projetos ligados ao seu nome tornam-se escassos, definindo este período como o inicio do fim. As últimas aparições referem-se aos desenhos para a Igreja de Nossa Senhora do Terço e Caridade e para a Capela da Nossa Senhora do Pinheiro, na zona do Porto. Os elementos decorativos deixam imaginar uma evolução do estilo, tornando mais suaves as linhas e os ornamentos.

A década de 1760 é marcada por um anonimato cada vez maior. “Não existe nenhum documento relativo ao mestre italiano, fazendo desaparecer uma das figuras mais emblemáticas desta cidade. O último registo é datado a 25 de Julho 1763, dia em que a Ordem Terceira da Nossa Senhora do Carmo o contactou, a fim de encontrasse uma solução para a construção de uma passagem que ligasse o terraço ao coro da igreja, naquele tempo em fase de restauro.” (Tedesco, 2011: 250).

Nasoni morre no dia 30 de Agosto de 1773, com a idade de 82 anos, assistido pelos Irmãos da Irmandade dos Clérigos:

“Faleceu da vida presente com todos os Sacramentos o nosso Irmao D. Nicolau Nasoni…e foi sepultado nesta Igreja sendo asestido pela Irmandade como pobre e se lhe fiserão os tres ofícios como também o da sepultura“.

O artista foi sepultado no interior da Igreja como era habitual fazer-se com os irmãos defuntos da Ordem. Deixando de lado as suas obras, a partir do século XIX perde-se cada traço ligado à sua figura, incluindo a sua descendência. Vários críticos afirmam que Nasoni morreu num estado de absoluta pobreza, devido a um investimento mal feito realizado pelo filho, que geria a fortuna do pai. Esta teoria é alimentada pelo facto de no testamento de morte lhe ser atribuído o adjetivo de “pobre”.

Apesar de a ele se dever o ex-libris da cidade, a homenagem prestada pelas suas obras foi inexistente. “Apenas foi dedicada uma pequena rua, fria, húmida, com algumas dezenas de metros (e recentemente o nome de uma escola na cidade) o que mostra bem quão injusta é, por vezes, a memória dos homens (Mata, 2009: 230)”.

Fontes e Bibliografia

Arquivo Municipal do Porto. Nicolau Nasoni : um artista italiano no Porto : 1725 – 1773

BORGES, Nelson Correia. 1995. Do Barroco ao Rococó, in História da Arte em Portugal Volume 9. Lisboa: Publicações Alfa.

MATA, Joel. 2009. Lições de História da Cultura Portuguesa. Lisboa: Universidade Lusíada Editora.

TEDESCO, Giovanni Battista. 2011. Nicolau Nasoni : formação de um pintor e de um artista da arte efémera em Itália (1691-1723). Disponível em: https://hdl.handle.net/10216/63188

VAZ, Cristina. Nicolau Nasoni: Arquitecto: 1691-1773.

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