Esta semana celebramos a Páscoa. Esta comemoração representa um processo simbólico e interior de voltar a um estado de reintegração da Vida; ressuscitar para a Vida, livre dos apegos do mundo. Permitamos, pois, que a Vontade, Amor, Sabedoria, que se crucificaram por nós no mundo, também seja crucificados em cada um de nós.
Neste post damos ao prezado leitor um enquadramento geral desta ancestral tradição que, como teremos ocasião de verificar, é mais antiga que o Cristianismo ou Judaísmo. Este post pretende ser uma singela homenagem nossa a Cristo. Para isso damos, por um lado, a conhecer o que se passou na Santa Ceia e, por outro, o verdadeiro e desconhecido papel de Judas
Esta época traz consigo um convite à introspeção; podemos aproveitá-la como uma bela oportunidade entrar em contacto com a Natureza, com a nossa vida interior para nos tornarmos na melhor versão de nós mesmos e, assim, (re)florescer como um lírio. Sim, nós podemos ser mais e melhores, mas se não acreditarmos numa mudança, a não a provocada pelo envelhecimento, trazida pelo “tempo” (espaço percorrido), então cada Páscoa nada mais será do uma data no calendário, uma confraternização, uma celebração com muito pouca Vida. Páscoa é uma celebração do princípio divino da Vida. A Páscoa, guarda pois em si um significado profundo e belo. É precisamente isto que pretendemos mostrar ao prezado leitor.
Páscoa é o instante, dentro do ciclo da Vida, de renascimento com o Espírito do Eterno a manifestar-se no plano material. Assim, a cada ano no primeiro Domingo após a Lua cheia do Equinócio de Outono com o Sol a cruzar o Equador, simbolismo da crucifixão, chega a Páscoa, data móvel, associada ao Pessach, passagem, a travessia do mar Vermelho, entre os Judeus, e a passagem da morte para a Vida (ressurreição) de Cristo, para os Cristãos.
Contudo, a celebração desta passagem, renascimento não um exclusivo de judeus e cristãos. Vem de tempos ancestrais muitas vezes associada ao ovo, como semente de um novo ser, à lebre e ao coelho, ligado à fertilidade, e a tantas outras histórias revestidas do mesmo significado em várias civilizações.

Após este breve enquadramento, como singela forma de homenagearmos Aquele que nos mostrou o “Caminho, a Verdade e a Vida”, vamos procurar narrar os acontecimentos da Santa Ceia, para meditarmos acerca do significado desta época e a forma como se aplica às nossas vidas.
Desde a Antiguidade se dizia “Honrai as verdades com a prática [do Ser]”. A exteriorização pela ação, força de Ser, da Verdade, ensinada por várias grandes mentes, são o fim derradeiro. Cada Páscoa é, pois, um convite a um (re)nascimento, fazer florescer o que de mais Nobre e puro há em cada um de nós!
Para realização desta proposição, recorremos a fontes não canónicas, Apócrifas. Neste ponto vamos seguir o brilhante trabalho de Antonio Piñero.
Aproximava-se a Páscoa e, uma vez que Jesus e os seus discípulos e os seus discípulos se encontravam fora dos seus domínios galileus, havia que procurar um local e prepará-lo, para celebrar convenientemente a festa. Os seus discípulos perguntaram-lhe:
– Mestre: onde queres que façamos os preparativos para a Páscoa?
E Jesus respondeu:
– Porventura desejo eu comer carne convosco nesta Páscoa?
A resposta simbolizava uma mudança significativa com toda a tradição judaica: de acordo com o vegetarianismo, várias vezes manifestado na Sua vida, Jesus ia celebrar uma Páscoa sem sacrificar o preceptivo cordeiro. E assim. Os discípulos encontraram um local apropriado e fizeram os preparativos convenientes, mas nessa refeição pascal não se distribuiu aos comensais mais do que pão e água. Também não houve copos de vinho, apesar de que a distribuição do fruto da vide entre os assistentes fosse também de preceito, na festa. Jesus, que fazia de “pai” de família, abençoou a bandeja que continha os alimentos e pronunciou as orações de rigor. Terminada a primeira parte do ritual, o pão e a água foram distribuídos entre todos os assistentes, que os comeram juntamente com as ervas amargas num ambiente muito triste, cheio de tensão e presságios. À Ceia tinham querido assistir Marta e Maria, Amigas de Jesus que viviam em Betânia e cujo irmão, Lázaro, fora ressuscitado (Iniciado?) pelo Mestre. Embora fosse um ágape pascal só para os mais íntimos discípulos, o círculo estreito dos Doze foi quebrado com a presença destas mulheres e de Tiago, irmão do Senhor, que foi um participante especial, ainda que não fizesse parte do grupo inseparável dos discípulos. O mais importante da sua participação na Ceia foi o voto que se pronunciou.
Na noite da Última Ceia, Cristo deu as suas últimas instruções. Entre elas destacam-se duas, que podem ser encontradas nos relatos de S. João. A primeira é o novo mandamento. Entre outras coisas disse o Mestre: “Um novo mandamento vos dou, que vos amei uns aos outros assim como eu vos amei” (João 13:34). Essa é uma chave para a Felicidade que todos buscamos. Todo o sofrimento com que o Homem se depara é precisamente provocado pelo facto de não acionarmos o mandamento de Cristo.
Terminado o que podia ser parte da refeição daquela noite cheia de presságios, levantaram-se da mesa. Jesus reuniu à sua volta os seus disse-lhes:
– “Antes de eu ser entregue a eles, cantemos um Hino ao Pai, para depois enfrentarmos o que nos espera”.
Contudo, antes de passarmos ao cântico propriamente dito, uma nota importante deve ser feita. Mais importante que as palavras em si, será o Sentir gerado. A Verdade ao ser pensada, escrita ou falada perde a sua grandiosidade. Daí a importância de Sentir, com o Coração!
Ordenou-lhes, então, que fizessem um círculo, segurando-se pelas mãos. Jesus colocou-se no centro do círculo assim construído e disse-lhes:
– Respondei-me com Ámen
Cristo começou entoar o Hino, que dizia assim:
Nós te louvamos, Pai
Atos de João, 94-96
Glória a ti, Pai
Glória a ti, Graça
Glória a ti, Espírito
(e todos os discípulos respondiam: Ámen. Louvamos-te Pai;)
Damos-te as graças, Luz
onde não habitam as Trevas. Ámen
Vou ser salvo
e serei eu o salvador. Ámen
Vou ser libertado
e serei eu o libertador. Ámen
Vou comer
e serei eu o comido. Ámen
Vou ouvir
e serei ouvido. Ámen
Sou um espelho
em que tu me reconheces. Ámen
Sou uma porta
à qual tu bates. Ámen
Tu que danças, reconhece
o que faço, porque teu é
este padecer do Homem
que eu vou sofrer.
De nenhum modo poderias
saber o que padeces,
se não tivesse sido enviado pelo Pai
a ti, como o Logos.
O que as pessoas vêem em mim,
isso eu não sou.
E o Eu Sou vê-lo-ão,
quando vieres a mim.
Eu salto;
mas tu, por teu lado compreende o Todo.
E quando o compreenderes diz:
Glória a ti Pai. Ámen.
Como podemos explicar esta dança e hinos, à primeira vista tão estranhos aos ritos observados pelo povo judeu? Talvez só mesmo se penetrarmos nos ensinamentos ocultos (iniciáticos) dos Mistérios do Céu é que poderemos começar a dar os primeiros passos na cabal compreensão da ação do Mestre. Contudo, não o intuito desta publicação abordar tão delicado e divino tema.
Voltando à nossa narrativa, aproximava-se o momento no qual ia concluir, de uma maneira trágica, a vida de Jesus… e, aos olhos das pessoas, por efeito de um ato de traição por parte de um dos seus discípulos. Mas há um entre os nossos documentos que sustenta firmemente que tudo se passou de outra maneira: as gentes não o sabiam, mas aquela a quem chamariam, depois, o “traidor”, era na verdade uma pessoa muito diferente. O documento inicia-se com a afirmação de Judas era, na realidade, o discípulo preferido de Jesus, o único que compreendia, o único capaz de receber os tão famosos ensinamentos secretos/iniciáticos. Por isso, o documento começa por:
Palavras secretas da revelação que Jesus disse a Judas Iscariotes durante oito dias no terceiro dia antes de celebrar a Páscoa
Evangelho de Judas 33, 1ss
Depois Jesus promete a Judas: “Afasta-te dos meus companheiros. Contar-te-ei os mistérios do Reino: tu podes alcançá-los, mas sofrerás muito”.
E mais tarde Jesus acrescenta: “Vem para que te ensine sobre [os segredos] que nenhum Homem viu. Pois há um grande Eon ilimitado que nenhuma geração de anjos viu, em que há um Grande Espírito Invisível”.
Ao longo dos dias, Jesus revela a Judas os segredos do mundo divino superior, os do mundo divino inferior e do Cosmos, como foi criado o primeiro Homem e o destino da humanidade com a destruição dos indignos. Mas, antes de tudo, faz-lhe um pedido surpreendente: Judas deve assumir a a tarefa de o entregar aos judeus, de modo a que se cumpra o desígnio divino do sacrifício de Jesus na cruz pela humanidade. Naturalmente, Judas não entrega propriamente Jesus, que é um ser divino, mas sim o corpo que o reveste e que constitui a figura externa do Salvador. E, naturalmente, poucos compreenderão este ato… pelo que ao pobre do Judas lhe tocará carregar com o desonroso título de “traidor”.
Na realidade, este ato reportará a Judas um grande benefício: o anúncio por parte de Jesus da traição de Judas vai junto com a promessa de um grande prémio, o descanso eterno num lugar de eleição: “Em boa verdade te digo… Tu serás mais que todos eles, pois o homem que me reveste, tu sacrificarás”. “Eis que todas as coisas te foram ditas. Levanta a vista para cima e olha para a nuvem que há nela e nas estrelas que giram à sua volta , e a estrela que é a guia, essa é a tua estrela”. Judas, então, levantou a vista e viu a nuvem luminosa e entrou dentro dela”.
Em suma, Páscoa é, pois, um processo simbólico e interior de voltar a um estado de reintegração da Vida; ressuscitar para a Vida, livre dos apegos do mundo. Permitamos pois que a Vontade, Amor, Sabedoria, que se crucificaram por nós no mundo, também seja crucificados em cada um de nós.
Feliz renascimento. Santa e Boa e Verdadeira Páscoa!
Bibliografia
Obras consultadas:
Bíblia Vol. I. (novo Testamento, os quatro Evangelhos)
PIÑERO, António. 2007 Jesus – A Vida Oculta. Lisboa: Ésquilo
ROHDEN, Huberto. 2011 O Cristo Cósmico e os Essénios. 2ª Edição. São Paulo: Martin Claret.
Degustação Filosófica – Simbolismo profundo da Páscoa