Liberté, Égalité, Fraternité

No dia em que a França celebra mais um dia nacional, damos ao conhecer aos nossos prezados leitores do nosso blog, o legado de um homem que durante o processo revolucionário posterior a 1789 procurou estabelecer um mundo mais justo e fraterno. Falamos do Incorruptível Maximilien Robespierre.

Nascido a 6 de maio de 1758 em Arras, Robespierre acreditava firmemente na possibilidade da existência de um Homem Novo, Livre, despido dos velhos freios humanos já não necessários, onde as bases deste Ideal seriam as Boas, Belas e reconhecidas Virtudes. Um pequeno trecho de um discurso seu, Sobre os Princípios da Moral Política, proferido a 5 de Fevereiro de 1794 resume os seus ideais:

Maxmilien Robespierre
Artista desconhecido (domínio Público)

Qual é o fim para onde tendemos? O pacífico gozo da liberdade e da igualdade, o reinado dessa Justiça Eterna cujas leis estão gravadas, não em mármore ou em pedra, mas no coração de todos os homens, mesmo no do escravo que as esquece e do tirano que as denega. (…)
Queremos substituir no nosso país o egoísmo pela moral, a honra pela probidade, os usos pelos Princípios, as conveniências pelos deveres; a tirania da moda pelo império da Razão; o desprezo pela infelicidade pelo desprezo do vício; a insolência pelo brio; a vaidade pela grandeza da alma; o amor ao dinheiro pelo amor à glória; a gente “bem” pelas pessoas boas; a intriga pelo mérito; o espirituoso pelo génio; o brilho pela Verdade; o tédio da voluptuosidade pelo encanto da felicidade; a pequenez dos grandes pela grandeza do homem; um povo amável, frívolo e miserável por um povo magnânimo, possante, feliz, isto é, todos os vícios e todos os ridículos da monarquia por todas as virtudes (…)”

Maximilien Robespierre

Na sua busca por uma sociedade Justa, Livre e Fraterna, aprovou o Decreto do Ser Supremo como forma homenagear o Ideal e fortalecer a ligação entre o sensível com o inteligível. Num discurso proferido a 18 de novembro de 1793 afirma: “(…) Não é por um povo que combatemos, mas pelo Universo; não pelos que vivem hoje, mas por todos aqueles que existirão”.

Um dia antes do golpe, proferiu seu último discurso, deixamos aqui alguns trechos:

Cidadãos,

Outros, que vos tracem quadros lisonjeiros; eu venho dizer-vos verdades úteis. Não realizar terrores ridículos como os espalhados pela perfídia; quero sim, se for possível, extinguir os fogachos da discórdia pela força da Verdade. Vou desvelar os abusos que tendem à ruína da pátria e que só a vossa probidade pode reprimir. Vou defender perante vós a vossa autoridade ultrajada e a liberdade violada. Se vos digo também alguma coisa das perseguições de que sou alvo, não mo recrimineis; vós não tendes nada em comum com os tiranos que combateis. Os clamores da inocência ultrajada não vos importunam os ouvidos que esta causa não vos é em nada estranha.
As revoluções que, até nós, mudaram a face dos impérios, não tiveram por objeto mais do que uma mudança de dinastia ou a passagem do poder de um só ao de vários. A Revolução Francesa é a primeira a ter sido fundada na teoria dos direitos da humanidade e nos princípios da Justiça. As outras revoluções exigiam senão astucia: a nossa impõe Virtudes. A ignorância e a força absorveram-nas num despotismo novo: a nossa, emanada da Justiça, não pode repousar senão no seu seio. A República, trazida insensivelmente pela força das coisas e pela luta dos amigos da liberdade contra as conspirações renascentes, infiltrou-se, por assim dizer, através de todas as fações; mas encontrou o poder organizado delas a cercá-la e todos os meios de influência nas suas mãos; assim, nunca deixou de ser perseguida desde o seu nascimento, na pessoa de todos os homens de boa-fé que combatiam por ela; é que, para conservar a vantagem da posição deles, os chefes de fação e os seus agentes foram forçados a esconder-se na forma da República. Précy em Lyon e Brissot em Paris gritavam Viva a República! Todos os conjurados adotaram o mesmo, mais pressurosamente do que quaisquer outros, todas as fórmulas, todas as palavras do apelo do patriotismo. O austríaco, cuja profissão era combater a revolução, o Orléans, cujo papel era fingir o patriotismo, encontraram-se na mesma linha; e um e outro já não se podiam distinguir do republicano. Não combateram os nossos princípios, corromperam-nos; não blasfemaram contra a revolução, trataram de a desonrar, sob o pretexto de a servirem; declamaram contra os tiranos e conspiraram pela tirania; louvaram a República e caluniaram os republicanos. Os amigos da liberdade procuraram derrubar o poder dos tiranos pela força da Verdade: os tiranos procuram destruir os defensores da liberdade pela calúnia, dão o nome de tirania ao próprio ascendente dos princípios da Verdade. Quando esse sistema seja capaz de prevalecer, a liberdade está perdida; só a perfídia é legítima e só é crime a virtude; pois é da própria natureza das coisas que onde quer que haja homens reunidos existe uma influência, a da tirania ou da razão. Quando esta é proscrita como um crime, a tirania reina; quando os bons cidadãos são condenados ao silêncio é fatal que dominem os celerados.
Não, não fomos severos demasia; atesto-o com a República que respira! Atesto-o com a representação nacional, rodeada pelo respeito devido à representação de um grande povo! Atesto-o com os patriotas que gemem ainda nos calabouços que os celerados lhes abriram! Atesto-o com os novos crimes dos inimigos da nossa liberdade e a culposa perseverança dos tiranos coligados contra nós! Fala-se do nosso rigor e a Pátria acusa-nos da nossa fraqueza.
Fomos acaso nós que lançamos nos calabouços os patriotas e levamos o terror a todas as condições? Foram os monstros que nos acusaram. Fomos acaso nós que, esquecendo os crimes da aristocracia, e protegendo os traidores, declaramos guerra aos cidadãos pacíficos, erigimos em crimes quer preconceitos incuráveis quer coisas indiferentes, para encontrar por toda a parte culpados e tornar a Revolução temível ao próprio povo? Foram os monstros que nós acusamos. Fomos nós que, procurando opiniões antigas, fruto da obsessão dos traidores, passeámos o gládio sobre a maior parte da Convenção nacional, pedimos nas sociedades populares a cabeça de 600 representantes do povo? Foram os monstros que nós acusamos.
Tal é, no entanto,  a bases desses projetos de ditadura e de atentados contra a representação nacional imputados primeiro ao Comité de Salvação Pública em geral. Por que fatalidade foi essa grande acusação de repente lançada sobre a cabeça de um só dos seus membros? Estranho projeto para um homem, o de levar a Convenção Nacional a degolar-se a si mesma em detalhe pelas suas próprias mãos, para lhe franquear o caminho do poder absoluto! Outros aperceberam-se do lado ridículo destas inculpações; por mim não vejo nelas senão a sua atrocidade. Dareis conta, pelo menos, à opinião pública da vossa honrosa perseverança em prosseguir o projeto de degolar todos os amigos da Pátria, monstros que procurais roubar-me a estima da Convenção Nacional, a mais gloriosa recompensa dos trabalhos de qualquer mortal, que não usurpei nem surpreendi, mas fui forçado a conquistar! Parecer um objeto de terror aos olhos do que veneramos e amamos é, para um homem sensível e probo, o mais horrendo dos suplícios; fazer-lho sofrer, a maior das felonias. Mas reclamo toda a vossa indignação acerca das atrozes manobras empregadas para escorar estas extravagantes calúnias.
Aspiram, diz-se, ao poder supremo; já o exercem… A Convenção Nacional não existente portanto! O povo francês está portanto aniquilado! Estúpidos caluniadores! Deste-vos conta de que as vossas declamações ridículas não são uma injúria feita a um indivíduo, mas sim a uma nação invencível, que doma e castiga os reis? Quanto a mim, teria extrema repugnância em defender-me pessoalmente perante vós contra a mais cobarde das tiranias se não estivésseis convencidos de que sois os verdadeiro objetos dos ataques de todos os inimigos da República! Ei! Quem sou eu para merecer as perseguições deles, se não entram no sistema geral de conspirações contra a Convenção Nacional? Não reparastes em que, para vos isolar da Nação, publicaram à face do universo de que ereis ditadoras que reináveis pelo terror, desautorizados pelo voto tácito dos franceses? Não chamaram eles hordas convencionais aos nossos exércitos? À Revolução francesa, jacobinismo? E quando afetam dar a um pobre indivíduo vítima dos ultrajes de todas as fações uma importância gigantesca e ridícula, qual pode ser a sua finalidade a não ser a de vos dividir, negando a vossa própria existência, semelhantes ao ímpio que nega a existência da Divindade que teme?
A palavra “ditadura” tem, no entanto, efeitos mágicos; difama a liberdade; envilece o governo, destrói a República; degrada todas as instituições revolucionárias, que são apresentadas como obra de um só homem; torna odiosa a justiça nacional, que apresenta como instituída pela ambição de um só homem; dirige para um só ponto todos os ódios e todos os punhais do fanatismo e da aristocracia.
(…)
“Franceses, não deixeis os vossos inimigos degradar as vossas almas e debilitar as vossas virtudes com uma heresia maligna! Não, Chaumette, não Fouchet, a morte não é sono eterno. Cidadãos, apagai das pedras tumulares esta máxima sacrílega que cobre toda a natureza com um manto fúnebre e lança insultos à morte. Gravai antes isto: “A morte é o princípio da imortalidade!”. Meu povo, recordai que se na república a Justiça não reinar suprema e que se esta palavra não significar amor à igualdade e ao país, a liberdade não passa de uma palavra vã. (…) recordai que onde não reina a justiça, reinam as paixões dos magistrados, e que o povo mudou as grilhetas mas não o seu destino! (…) Se for impossível defendê-los [Ideais] sem ser considerado ambicioso, concluirei que os princípios estão proscritos e que a tirania reina entre nós, mas não deverei ficar calado! Que objecções podem levantar-se contra um homem que está certo e sabe como morrer pelo seu país?”

Maximilien Robespierre

A 28 de julho de 1794 a guilhotina caía sobre a alma da revolução. Todavia, o seu Ideal de um Ser Humano renovado e livre prevalecem ainda hoje e devem ser relembrados a cada 14 de julho.

Bibliografia

Discours par Maximilien Robespierre – 17 Avril – 27 Juillet 1794.

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