Estreito de Ormuz – um olhar geopolítico e estratégico

Os recentes incidentes dos ataques de forças lideradas pelos EUA e Reino Unido contra posições dos rebeldes Houthis, em resposta aos ataques a navios comerciais no mar Vermelho, levou-me, enquanto doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade do Minho, a desenvolver a seguinte crónica a procurar explicitar o que poderá estar em jogo para a economia e segurança mundiais caso comece um conflito aberto na área.

Figura 1: o mapa regional

Entretanto, o aumento das tensões entre o Irão e os Estados Unidos, em razão do apoio diplomático e bélico que Teerão dá esforço bélico russo na sua guerra contra a Ucrânia e do apoio dado ao Hamas no seu conflito com Israel, eleva a nosso ver a perspectiva de um confronto militar junto a uma artéria vital para o comércio mundial, o que a nosso ver convida-nos a olhar novamente para a importância que estreito de Ormuz encerra para a segurança e comércio mundiais.

Figura 2: o estreito de Ormuz

“A região do Golfo Pérsico sempre se distinguiu, historicamente, por um fator que continua hoje a ser geoestrategicamente importante, a posição” (Correia, 2004: 195). Neste capítulo, assume importância capital o Estreito de Ormuz, único ponto de acesso que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Está situado, por um lado, entre os Emirados Árabes Unidos e Omã e, por outro, o Irão.

Dada a sua importância não é ao acaso que ao longo da história diversas potências tenham procurado controlar este ponto geográfico. Por exemplo, no século XVI quando Portugal se torna na primeira potência com alcance global, com intuito de solidificar a presença lusa no Índico, Afonso de Albuquerque instalou bases navais em Ormuz e Omã. Com efeito, Robert Kaplan numa obra recente sobre a estratégia norte-americana no Índico, defende “que foi Albuquerque quem, pela primeira vez, desenhou as bases de uma estratégia de hegemonia naval sobre o oceano Índico e mares adjacentes. Depois dele, até hoje, só houve imitadores” (Reis, 2019: 44). Já o Reino Unido, mesmo depois do fim do seu império colonial, manteve um controlo desse controlo até 1971.

Ao presente são os EUA, que seguindo as pisadas estratégicas de Portugal e Reino Unido, quem procura exercer o controlo deste ponto de passagem. Há muito que Washington considera a liberdade de navegação no estreito um interesse vital. Esse interesse e preocupação tornaram-se maiores após a revolução iraniana de 1979 e da implementação da Doutrina Carter. Conforme vem atestado num relatório com declassified information” da CIA, The Strait of Hormuz: a vulnerable lifeline, qualquer ameaça palestiniana (leia-se hoje Hamas) em atacar o transporte marítimo de Ormuz, a via navegável estratégica que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, chamaram a atenção internacional para este ponto de controlo no comércio mundial de petróleo.

Breve descrição geográfica

Em termos muito breves, o estreito de Ormuz tem cerca de 275 Km de comprimento e uma média de 80 Km de largura. No seu ponto mais estreito, entre Ra’s Sharitah, na península de Musandam, no Omã, e a ilha iraniana de Jazireh-ye Larak, o estreito tem cerca de 50 Km de largura. Em quase todos os lugares o Estreito tem mais de 45 metros de profundidade; na costa do Omã, as profundidades variam entre os 75 e os 225 metros. Os principais canais envio de entrada e saída atravessam esta área.

Desafios ao presente

Estima-se que diariamente entre 15 a 16 milhões de barris de crude passem por este estreito. “Estas exportações de hidrocarbonetos alimentam a Europa, a Ásia (China, Japão, Coreia do Sul) e os Estados Unidos. A sua segurança é, pois vital, para a economia mundial” (Lopez, 2007: 48).

Foi esta perspectiva que presidiu à criação da denominada “(…) Rapid Deployment Task Force (RDTF), baseada na Florida mas dispondo de numerosos pontos de apoio à volta do Golfo. É assim que a RDTF dispõe de facilidades em Marrocos e em Omã (ilha de Masurah), do uso da base militar egípcia de Ras Banas, da base de Incirlik e dos portos de Yumurtalik e Iskederun na Turquia. Foram concluídos acordos de defesa com o Qatar (Março de 1995), os Emirados Árabes Unidos (1991 e 1994) e com o Bahrein onde se encontra o quartel-general da V Esquadra americana” (Lopez, 2007: 48).

Perante o aumento o aumento das tensões na região, com o abandono dos EUA do acordo nuclear alcançado com o Irão e com a própria Rússia, embora os especialistas afirmem que será difícil fechar o estreito por um período prolongado, o Irão tem pequenos barcos que podem interromper o transporte marítimo, bem como submarinos e outros meios que podem colocar minas que podem interromper esta rota vital para o comércio mundial.

Numa altura em que o mundo vive sob verdadeiro um barril de pólvora prestes a detonar, recomendamos que sempre antes de empreendermos qualquer ação que a virtude da Prudência esteja presente.

Obras Citadas

CORREIA, Pedro Pezarat. 2004. Manual de Geopolítica e Geoestratégia – Volume II. Coimbra: Editora Quarteto.

LAUB, Zachary, MERROM, William. 2019. The Strait of Hormuz: A U.S.-Iran Maritime Flash Point. Disponível na internet: https://www.cfr.org/article/strait-hormuz-us-iran-maritime-flash-pointutm_source=fb&utm_content=061919&utm_medium=social_owned&fbclid=IwAR14m6nFxoZBGRXTBNTLx5xwAmA-IfbJfIuL9Y4-gb3oymbsKzl7SABOymI

Lopez, Philippe Sébille. 2004. Geopolíticas do Petróleo. Lisboa: Instituto Piaget

REIS, Bruno Cardoso. 2019. Pode Portugal ter uma estratégia? Lisboa: FFMS

Leave a comment