Quo vadis Chega?

Na edição de hoje do Expresso Online, Nuno Saraiva capturou a essência do que é o Partido Chega.

Image credits – Nuno Saraiva

“O Chega transformou-se numa oficina de tunning de deputados que o PSD e a Iniciativa Liberal atiraram fora. Ventura recolhe-os, dá-lhes decapante e duas demãos, faz uma inspeção periódica obrigatória às três pancadas, envia-os para uma semana de doutrinação salazarista no bootcamp de Pacheco de Amorim e faz deles cabeças de lista do Chega às eleições de março”.

Nuno Saraiva

Neste post não é nosso intuito discutir a natureza da atual vaga Populista que varre os sistemas democráticos europeus e norte-americano. Existem já, com feito, vastíssima bibliografia de grande qualidade; basta ver a excelente obra coordenada pelo Prof. Miguel Prata Roque O Populismo do século XXI: democracia sob ataque?

Não obstante, a nosso ver é hoje indubitável que há um certo esquecimento da política e da Ciência Política um ser “esquecimento” da Virtude Política. E esse sentimento “tende a gerar desilusão e enfado pela política (em geral), e pela política democracia (em particular), manifestados quer pelo alheamento e abstenção, quer pela raiva e votos de protesto. Tudo isto que acabamos de referir tem sido bem aproveitado pelos movimentos Populistas por toda Europa. Aliás, as mensagens dos líderes de movimentos populistas tende a ser bem simplista, ciente do que a maioria dos eleitores à discussão aprofundada da causa pública, o populismo tende a apresentar soluções simplificadoras (ou demasiado simplórias) para problemas altamente complexos.

Não negamos, pois, que o nosso País sofra de muitos problemas, sejam eles sociais, económicos, político, etc. No entanto, eleitor e pensador questiono-me, e convido-o o(a) prezado(a) leitor(a) a seguir tal exercício. É este o tipo de representação, sem eira nem beira, que vai governar o nosso País?

O nosso pressuposto, que é tema da minha tese de Doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade do Minho, é de que a Teoria Política deve novamente ter uma palavra a dizer acerca das razões pelas quais a virtude política é crucial, acerca do conteúdo dessa virtude, e acerca de como se pode esperar que ele emerja na arena política

Outro ponto que gostaríamos de frisar é o de que não pretendemos ofender de forma alguma profissão lixeiro/cantoneiro, que é tão nobre como qualquer outra; lembro sempre das sábias palavras ditas por Dr. Celso Charuri num texto, datado de setembro de 1981 e compilado na obra Como vai a sua Mente?

João era um lixeiro diferente. Sua presença fazia-se notar já pelas
roupas que usava: eram limpas. João, em sua sabedoria popular, dizia que
o externo é o reflexo do interno. Era de uma família tradicional de lixeiros,
em que o pai, seu Alvino, orgulhava-se cada vez que nascia um homem na
família, porque naqueles tempos somente os homens poderiam ser lixeiros.

João era um deles. Nas suas andanças pelas ruas da cidade, apresentava-se sempre sorridente, compenetrado e feliz, pois sabia, por conhecimento tradicional, que alguém deveria sempre recolher o lixo das atitudes humanas. Considerava honroso esse trabalho, pois sabia que só os evoluídos podem reconhecer o lixo. Os outros são apenas inocentes fazedores de lixo!
João não se casava, porque as mulheres de sua época não conseguiam ver riquezas em reconhecedores de lixo, lixeiros, mas tão somente nos fazedores de lixo.
Gostava de ficar perto de grupos, pois sabia que mais cedo ou mais
tarde entrariam em discussão e, então, sobrariam muitos pedaços de papel
esvoaçando pelo ar, tais como palavras caluniadoras. Procurava recolher tão
depressa quanto possível esses pedaços e guardá-los em seu silêncio, pois sabia
que, se não agisse rapidamente, o mal se espalharia.
“Limpar, limpar, limpar” era seu lema, pois acreditava em um mundo limpo.

Celso Charuri

Temos por ambição ser a espécie de lixeiro que o autor supracitado descreve. Por outras palavras, levar os nossos leitor a aproximarem-se da luz da Verdade. Esperamos com este breve texto ter contribuído para tal.

Obras consultadas e citadas

Celso Charuri – Como vai a sua mente?

Miguel Prata Roque (coord.) – O Populismo no século XXI: democracia sob ataque? Lisboa: AAFDL Editora

Pedro Rosa Ferro – Virtude Política: uma análise das qualidades e talentos dos Governantes. Coimbra: Edições Almedina.

Jornal Expresso edição online.

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