A tragédia Iémen: guerra, impasse e o caos humanitário

O conflito que se arrasta há mais de oito anos no Iémen entre o governo, internacionalmente reconhecido e sustentado por uma coligação liderada pela Arábia Saudita; e os rebeldes Houthi, apoiados pelo Irão, mergulhou um país numa gravíssima e dramática crise humanitária.

Após um cessar-fogo mediado pelas Nações Unidas, em 2022, as tensões diminuíram e as condições humanitárias até melhoraram, mas os combatentes não conseguiram renovar o acordo após seis meses e o Iémen continua afundado numa crise humanitária sem que as grandes potências pouco, ou nada se importam, com o drama e sofrimento do povo iemenita.

Entretanto, os recentes desenvolvimentos nesta área do globo com os ataques de forças dos EUA e do Reino Unido contra posições Houthis, em resposta aos ataques a navios comerciais no mar Vermelho, vieram colocar o Iémen no centro da agenda política mundial. Embora seja um país despojado de matérias-primas vitais para as grandes economias mundiais, o Iémen adquire importância pelo fator posição e controlar a passagem do estreito de Bab el-Mandab, um ponto de estrangulamento para os dos superpetroleiros e outros navios mercantes vindos da península Arábica.

Soldado Houthi em Sanaa, a capital iemenita 

Em resumo, o Iémen estrategicamente situado no canto Sudoeste da Península Arábica, onde a maior parte da produção de petróleo mundial é escoada através do estreito citado e entrada do Mar Vermelho, vem colocar as atrocidades que se passam no país no centro das atenções.

Com efeito, o Mar Vermelho é uma das artérias mais importantes do sistema de transporte marítimo global, com um terço de todo o tráfego de contentores fluem através dele. Qualquer perturbação sustentada no comércio poderá provocar um efeito cascata de custos mais elevados em toda a economia mundial, como facilmente podemos comprovar através do mapa abaixo.

Introdução

O Iémen é um pequeno país situado Península Arábica, em tempos idos do império Romano conhecido como sendo a Arabia Felix, em oposição à “Arábia Deserta”, árida e que hoje corresponde à Arábia Saudita.

Nos últimos anos, infelizmente, o epíteto romano revelou-se inapropriado para os cerca de 26 milhões habitantes da República do Iémen: o país é atormentado pelo perpétuo conflito tribal e crescentemente sectário. Muitos analistas dizem que os combates, que se arrastam há mais de sete anos, transformaram-se numa “guerra por procuração” Os rebeldes Houthi, apoiados por Teerão e que derrubaram o governo iemenita, enfrentam uma oposição liderada pela Arábia Saudita. O envolvimento de outros combatentes, incluindo grupos militantes islâmicos apoiados pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), vieram complicar o quadro regional.

O conflito provocou, por agora, mais de quatro milhões de pessoas deslocadas e, além do mais, deu origem a surtos de cólera, escassez de medicamentos e ameaças de fome.

Hoje o Iémen compete com a Somália para ser a nação mais pobre do mundo árabe, o país é também muito vulnerável em termos ambientais, de tal modo que Saná será provavelmente, a primeira capital do mundo a ficar sem água corrente. Em síntese, o Iémen tem um lugar garantido na lista dos Estados falhados.

Embora as partes em conflito tenham cumprido um cessar-fogo de um mês em 2022, o que fez aumentar as esperanças de uma solução política para o conflito, a verdade é que em Outubro do mesmo, não conseguiram, infelizmente, prolongar a trégua citada. Entretanto, os recentes ataques de forças norte-americanas e britânicas contra posições Houthis, em resposta aos ataques a navios comerciais no mar Vermelho, vieram agravar ainda mais a situação.

1. Quais as principais que atravessam o Iémen?

O Iémen há muito que luta e vive por um lado, uma fricção intertribal entre o Norte e o Sul, que conforme teremos ocasião de assinalar mais adiante no presente texto, é uma luta pela influência regional entre a Arábia Saudita e o Irão, e, por outro, com o legado do colonialismo europeu.

Historicamente, existem poucas tensões confessionais no Iémen – onde os Xiitas representam cerca de 35% da população quase totalmente Muçulmana –, mas tiveram lugar inúmeros episódios de conflito entre tribos e entre o Norte e o Sul, que formaram dois países independentes durante a maior parte do século XX. O Norte conquistou a sua independência do império Otomano em 1918 sob a liderança de Yahya Muhamma Hamid ad-Din, um Imã Zaidita, que em 1926 se autoproclamou monarca do reino Mutawakkilita do Iémen. Em contraste, o Sul estava sob o controlo dos britânicos, que estrategicamente (seguindo as pisadas do Capitão Francisco de Albuquerque na sua expedição para a Índia) ocuparam o porto de Áden em 1839 e estabeleceram um protetorado que só terminou em 1967.

Todavia, nem o Norte nem o Sul têm gozado de estabilidade. Com efeito, no Norte, oficiais do exército desencadearam em 1962 um golpe de Estado, que provocou uma guerra tribal entre monárquicos, apoiados pela Arábia Saudita, e republicanos, a que se juntaram milhares de tropas egípcias enviadas pelo Gamal Abdul Nasser para a apoiar a nascente República Árabe do Iémen (RAI). Os militares egípcios chegaram a atingir cerca de 70 mil (retiraram-se em 1967, por causa dos gastos económicos do Egito com esta aventura no Iémen), mas uma vitória da república só foi alcançada no início de 1968 e a Arábia Saudita só a aceitou em 1970. Uma das características desta guerra civil no Iémen do Norte foi a utilização de gás tóxico, alegadamente pelas tropas egípcias.

Outra faceta nesta análise, é o ambiente internacional em que se desencadeou; em plena Guerra Fria. Por um lado, temos a Arábia Saudita com simpatias pelo bloco Ocidental liderado pelos EUA que temia uma invasão da península Arábica pelo nasserismo pan-árabe, e com simpatia pelas ideias comunistas.

A Guerra Fria e o exemplo da RAI também inspiraram a luta armada contra o domínio britânico no Sul, iniciado em 1963 pela Frente de Libertação Nacional (FLISO) e a Frente de Libertação Nacional (FLN). A FLISO tinha o apoio de Nasser, mas foi a FLN que saiu vitoriosa da luta entre os dois grupos e formou o governo República Popular do Iémen do Sul em 1967; e foi uma fação marxista da FLN que em 1970 mudou o nome do país para República Popular Democrática do Iémen (RDPI) – prova, como os cínicos se deliciam em sublinhar, de que ‘democrático’ no nome significava precisamente o oposto.

A RDPI e o Iémen do Norte envolveram-se em breves confrontos fronteiriços em 1970 e também numa breve, mas perversa, guerra civil em janeiro de 1986. Contudo, a promessa da descoberta de petróleo e de gás nos dois países e com a implosão da URSS, a RDPI concordou em 1990 em unir-se com o Norte, formando o que é ao presente a República do Iémen. Ali Abdullah Saleh, Presidente do Iémen do Norte desde 1978, tornou-se o primeiro chefe de Estado da nova e nascente nação.

A unidade, contudo, não tem sido uma experiência cómoda. Com efeito, a recusa do Iémen em integrar a coligação americana na Primeira Guerra do Golfo contra o Iraque, que ocupara o Kuwait, levou a Arábia Saudita a expulsar milhares de trabalhadores iemenitas e à consequente perda das suas remessas de divisas, cruciais para o Iémen. Tensões económicas e disputas entre fações levaram a confrontos entre o Norte e o Sul em Abril de 1994 e a guerra civil generalizada em maio, com o Sul a declarar a declarar oficialmente a sua secessão como República Democrática do Iémen, a 21 de maio de 1994. Contudo, foi o presidente Saleh quem saiu vitorioso do conflito; o vice-presidente, Ali Salim al-Bayd e os seus correligionários secessionistas do Partido Socialista do Iémen fugiram para o vizinho Omã.

Todavia, em 2007, o movimento do Sul haveria de ressurgir como o “Movimento do Sul” e continuar a sua ação reivindicativa junto do governo central por uma maior autonomia dentro do Iémen. Simultaneamente, a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), um grupo militante islâmico, e o grupo insurgente relacionado Ansar al-Sharia capturaram território no Sul e no Leste. O movimento Houthi, do qual falaremos mais adiante, cuja base se encontra entre os Xiitas zaiditas do Norte do Iémen, sublevaram-se seis vezes contra o governo de Saleh entre 2004 e 2010.

No meio deste caos, os EUA, no início dos anos 2000 e em nome da War on Terror, decretada por George W. Bush, deram o seu apoio ao Presidente Saleh.

Podemos, pois, facilmente concluir que as tensões entre o Norte e o Sul são de tal modo arreigadas que podem ser permanentes. Contudo o que preocupa o resto do mundo, sobretudo a nível securitário, é a presença da al-Queda no Iémen. As origens da organização supracitada no Iémen datam da época em que o Presidente Saleh recebeu os mujahedin iemenitas que regressaram ao país em 1980, depois da guerra do Afeganistão contra a invasão soviético. Saleh usou então esses mujahedin para ajudar a derrotar os secessionistas marxistas do Sul na guerra civil de 1994.

Mas, num clássico de consequências não intencionais, depois das boas-vindas aos jihadistas, alguns destes combatentes formaram a Jihad Islâmica no Iémen no início de 1990, em breve seguidos pelo Exército Islâmico de Aden-Abyan (célebre pelo sequestro de 16 turistas estrangeiros no Iémen no Sul em 1998) e da Al-Qaeda do Iémen (AQI). Esta última com recurso uma lancha rápida dirigida por ativistas da AQI a responsável pelo atentado suicida, em outubro de 2000, contra o USS Cole, atracado em Áden, de que resultou a morte de 17 efetivos norte-americanos.

Os esforços de Washington para punir os responsáveis pelo ataque ao USS Cole e depois pelos atentados do 11 de setembro envolveram o envio imediato de ajuda militar no valor mais de 850 milhões de dólares em ajuda militar, de acordo com a base de dados online Security Assistance Monitor, dados citados pelo think-tank Council on Foreign Relations. Envolveu ainda o envio de forças especiais e agentes dos serviços secretos para o Iémen.

Neste âmbito, em 2002, um míssil lançado por um drone americano Predator – o primeiro ataque do género na península Arábica – matou Abou Ali al-Harithi, o líder da AQI e o homem que se pensava estar por detrás do ataque ao USS Cole. Mas a retaliação americana não deteve os jihadistas: em setembro de 2008, a Jihad Islâmica no Iémen, agora parte da Al-Qaeda, montou um ataque à embaixada dos EUA em Saná – matando 19 pessoas, incluindo seis atacantes – numa operação aparentemente ordenada por Osama Bin Laden. Em janeiro seguinte, os ramos na Al-Qaeda no Iémen e na Arábia Saudita uniram-se formalmente com o nome Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), sediada principalmente sediada para escapar à crescente repressão das autoridades sauditas e liderada pelo iemenita Nasir al-Wuhayshi (que foi morto no Iémen por um drone americano em junho de 2015).

Apesar dos esforços de contraterrorismo dos EUA, com os seus drones e forças especiais, e do regime iemenita, com 67 mil efetivos, a AQPA, que se pensa ter 1.000 e 3.000 combatentes, continua a tirar partido da turbulência constante do país, com os seus conflitos tribais e as lealdades divididas no interior das forças governamentais. Ocasionalmente, a AQPA tem sofridos duros reveses, tal como o ataque com um drone em setembro de 2011 que matou Anwar al-Awlaki, um pregador oriundo dos EUA cujos sermões via YouTube e internet atraíam seguidores do mundo de língua inglesa. Awlaki foi o primeiro cidadão americano a ser alvejado e morto pelos próprios EUA (o seu filho foi morto por outro ataque com um drone duas semanas mais tarde).

Mas os reveses têm sido temporários. A AQPA lançou vários ataques contra embaixadas ocidentais em Saná e foi graças aos serviços secretos da Arábia Saudita que, em 2010, as bombas disfarçadas de cartuchos de impressora foram descobertas antes de serem carregadas a bordo de um avião com destino a Chicago.

Dois anos mais tarde, o porto de Áden voltaria a ser palco de outro atentado suicida da AQI, com o ataque à bomba a um petroleiro francês, M/V Limburg, que provocou a morte de um membro da tripulação e aumentou o nível de alerta ocidental para a instabilidade no Iémen. Nos anos subsequentes, após a fuga da prisão de membros da Al-Qaeda, correram rumores de que o presidente Saleh tinha autorizado o movimento jihadista como forma de manter o apoio do Ocidente ao seu regime, que encara os secessionistas do Sul e a dissidência tribal do Norte como ameaças maiores à sua sobrevivência do que a presença da Al-Qaeda.

Entretanto, diversos grupos de direitos humanos sistematicamente acusaram de que Saleh dirigia um governo corrupto e autocrático. À medida que os efeitos ventos da Primavera Árabe de 2011 começaram-se a sentir pelo pelo Iémen, os rivais políticos e militares do presidente disputavam o seu derrube. A Primavera Árabe de 2011 marca claramente a nosso ver o início deste cenário catastrófico com que hoje nos deparamos.

Com efeito, as manifestações na capital Saná no início de 2011 contra o presidente Ali Abdullah Saleh levaram a um crescente ciclo de violência, com vários ministros e figuras militares, sendo mais notável deles o poderoso major-general Ali Mohsen al-Ahmar, a juntarem-se ao crescente ao movimento tribal contra o regime, no poder há mais de 30 anos.

Em abril, já sitiado Saleh parecia pronto para assinar um plano de paz negociado pelo Conselho de Cooperação do Golfo (uma aliança formada pela Ária Saudita, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Omã) que a oposição iemenita aceitou. Segundo este acordo, Saleh e a sua família receberiam imunidade judicial e partiriam para o exílio. Contudo, em maio, ele insistiu em algumas modificações e depois, no último momento, recusou a assiná-lo, levando o CCG suspender os seus esforços de paz e provocando intensos combates em Saná entre tropas leais ao Governo e milícias tribais opositoras.

No âmbito desses combates foi colocada uma bomba no palácio presidencial no dia 3 de junho, que deixou Saleh muito ferido. Transportado para a Arábia Saudita no dia seguinte para receber tratamento médico, Saleh entregou o poder ao seu Vice-Presidente, Abd Rabbuh Mansur Hadi. A ausência forçada de Saleh não levou, porém, a uma transferência de poder nem ao fim dos violentos tiroteios que irromperam em Saná durante o mês de setembro.

Com o piorar da situação , Saleh regressou ao Iémen a 23 de setembro de 2011 e, dois meses mais tarde, entregou formalmente o poder a Hadi, que segundo um acordo negociado com o CCG, seria o único candidato às eleições de fevereiro de 2012, das quais sairia presidente e ficaria encarregado de redigir uma nova Constituição.

Na sequência da Conferência Nacional para o Diálogo, o presidente Hadi anunciou planos, em fevereiro de 2014, para o País se transformar numa federação de seis regiões – uma ideia denunciada imediatamente pelos insurretos Houthis, da zona Norte próxima da Arábia Saudita, argumentando que ficariam prejudicados.

Até agora, a rebelião dos Houthis contra o governo central e as tribos pró-governamentais levara-os a envolverem-se em vários episódios bélicos, culminando com a ocupação de Saná em setembro de 2014. As Nações Unidas propuseram, então, um plano de paz, segundo o qual os Houthis retiravam-se das cidades que controlavam após a formação de um novo governo de unidade nacional.

Semanas depois, porém, os Houthis exigiriam novas concessões na redação da Constituição e colocaram o presidente Hadi e os seus ministros sob prisão domiciliária. Em janeiro de 2015, ocuparam a televisão nacional e, em fevereiro, anunciaram a nomeação de um conselho presidencial de cinco membros para substituir Hadi, que sensatamente fugiu para a cidade portuária de Áden, que os seus apoiantes afirmaram ser agora a capital “de facto” do Iémen. Mesmo assim, os Houthis continuaram a avançar: a 26 de março, Hadi tinha procurado refugiado na Arábia Saudita, precisamente quando os aviões sauditas começaram a bombardear alvos Houthis, à frente de uma coligação com os EAU, Bahrein, Kuwait, Qatar, Jordânia, Marrocos, Sudão e Egito (com um convite extensivo também ao Paquistão, mas que o governo de Islamabad declinou). Os EUA faziam indiretamente parte da coligação, tendo concordado em fornecer informações e logística.

2. Quais as principais causas para a situação?

Vários fatores contribuíram para estas divisões políticas e, que por sua vez, levaram a um conflito militar em grande escala:

  • Aumento no preço dos combustíveis. Sob pressão do Fundo Monetário Internacional (FMI), que concedera ao Iémen um empréstimo de 5.550 milhões de dólares mediante a promessa de reformas económicas, o Presidente Hadi suspendeu os subsídios aos combustíveis em 2014. O movimento Houthi, que atraiu apoio além da sua base habitual com as suas críticas à transição da ONU, organizando para isso protestos em massa exigindo preços mais baixos dos combustíveis e um novo governo. Os apoiantes de Hadi e o partido al-Islay, afiliado à Irmandade Muçulmana, mantiveram-se à margem desses protestos.
  • Aquisição de simpatia pela causa Houthi: os Houthis capturaram grande parte da capital Saná no final de 2014. Renegando um acordo de paz da ONU, consolidaram o controlo da capital e continuaram o seu avanço para Sul. O governo de Hadi, sob pressão, acabou por renunciar em janeiro de 2015 e posteriormente fugiu para a Arábia Saudita.
  • Divisões nas Forças Armadas: Unidades militares leais ao Presidente Saleh alinharam-se com os Houthis, contribuindo para o seu sucesso no campo de batalha. Por sua vez, outras milícias mobilizaram-se contra as forças Houthi-Saleh, alinhando-se com os militares que permaneceram leais ao novo governo liderado Hadi. Os separatistas do Sul intensificaram os seus apelos à secessão.
  • Intervenção saudita: Em 2015, com Hadi no exílio, Riade lançou uma campanha militar – travada principalmente a partir do ar – para fazer recuar os Houthis e restaurar a Hadi na presidência em Saná.

3. Quem são os Houthis?

O famoso movimento Houthi, batizado em homenagem a um líder religioso do clã Houthi, Hussein al-Houthi, um ex-membro do parlamento iemenita, que lançou uma rebelião que lançou uma rebelião contra o presidente Saleh, em junho 2004, e foi morto em combate, em setembro de 2004.

São oficialmente conhecidos como Ansar Allah (‘Ajudantes de Deus’). Surgiram no final da década de 1980 como um veículo para o renascimento religioso e cultural entre os Xiitas Zaidistas no Norte do Iémen. Os Zaidistas são uma minoria no país de maioria muçulmana Sunita, mas predominantes nas terras altas do Norte ao longo da fronteira com a Arábia saudita.

O Irão é o principal apoiante internacional dos Houthis e terá fornecido-lhes apoio militar, incluindo armamento. O governo de Hadi também acusou o movimento Hezbollah, aliado libanês do Irão, de ajudar os Houthis. A perceção da Arábia Saudita de que os Houthis são um procurador dos interesses de Teerão e não um movimento tribal impulsionou a intervenção militar de Riade. Mas muitos especialistas regionais dizem que a influência de Teerão é provavelmente limitada, especialmente tendo em conta que os iranianos e os houthis seguem diferentes fações do Xiismo. Os especialistas também dizem que a influência do Irão poderá diminuir à medida que as relações entre a Arábia Saudita e o Irão podem ganhar novo fôlego na sequência de uma reaproximação mediada pela China no início de 2023. Alguns analistas esperam que as transferências de armas iranianas para os Houthis diminuam, algo que com atual cenário é pouco provável.

A pedido de Hadi, em 2015, a Arábia Saudita montou uma coligação de Estados árabes de maioria Sunita: Bahrein, Egipto, Jordânia, Kuwait, Marrocos, Qatar, Sudão e Emirados Árabes Unidos (EAU). Em 2018, a coligação expandiu-se para incluir forças da Eritreia e do Paquistão (que acabaria por não entrar). Esta campanha aérea contra os Houthis tinha como objetivo restabelecer o governo de Hadi. Para Riade, aceitar o controlo Houthi do Iémen significaria permitir que um vizinho hostil residisse na sua fronteira Sul, e marcaria um revés na sua disputa de longa data com o Irão.

Após Arábia Saudita ter desempenhado um papel primordial no início, os EAU desempenharam o papel militar mais significativo na coligação, contribuindo com cerca de 10.000 tropas, principalmente no Sul do Iémen. Todavia, os EAU removeram a maior parte deles depois de entrarem em conflito com os seus aliados da coligação em 2019, quando apoiaram o separatista Governo de Transição do Sul (STC), que capturou Áden. Em Novembro daquele ano, Hadi e o presidente do CTE assinaram o Acordo de Riade, que afirma que as fações partilharão o poder igualmente num governo iemenita do pós-guerra. Os separatistas renegaram o acordo durante vários meses em 2020, mas acabaram por se juntar a um governo de unidade com representação igual de. Embora a formação de um governo tenha assinalado progressos na superação das divisões internas do Iémen, pouco fez para acelerar as conversações de paz. Em Abril de 2022, Hadi cedeu o poder a um conselho de governo e demitiu um deputado desprezado pelos Houthis na esperança de que os rebeldes regressassem à mesa de negociações.

Embora o Congresso dos EUA esteja dividido sobre o assunto, os Estados Unidos apoiaram a coligação liderada por Riade, à semelhança de grandes capitais europeias; Paris, a Berlim e o Londres. Os interesses dos EUA incluem a segurança das fronteiras sauditas; passagem livre no estreito de Bab al-Mandeb, o ponto de estrangulamento entre os mares Arábico e Vermelho e uma artéria vital para o transporte global de petróleo; e um governo em Saná que coopere no combate ao terrorismo.

Contudo o alvoroço sobre as mortes de civis nas campanhas aéreas da coligação, que muitas vezes usam armas fabricadas nos EUA, e o papel da Arábia Saudita no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, do Washington Post, em 2018, levaram os Estados Unidos e outras potências ocidentais a limitar algumas vendas de armas e o reabastecimento de aeronaves da coligação. Os legisladores também levantaram preocupações de que as armas fabricadas nos EUA estejam caindo nas mãos da Al-Qaeda do Paquistão e dos combatentes Houthi. Ainda assim, os Estados Unidos são o maior fornecedor de armas da Arábia Saudita, e a Administração de Donald Trump enquanto esteve em funções vetou três vezes projetos de lei que teriam interrompido as vendas de armas à Arábia Saudita.

Por seu turno, a Administração Biden disse que acabaria com o apoio dos EUA à ofensiva militar da coligação, o que representou uma clara mudança da orientação política exeterna. Tal incluiu proibição da venda de armas, e nomeação de um enviado especial ao Iémen. No entanto, empreiteiros de defesa dos EUA ainda supervisionam a manutenção das aeronaves sauditas que realizam operações ofensivas, e a administração aprovou a venda de armas à Arábia Saudita para fins de defesa. Pouco depois de assumir o cargo, o Presidente Biden reverteu a designação de última hora feita pela administração predecessora dos dos Houthis como grupo terrorista, citando os potenciais danos da medida às entregas de ajuda no Iémen.

Em resumo, embora os Houthis sejam Xiitas enquanto a coligação liderada pela Arábia Saudita é Sunita, o conflito do Iémen não é tão sectário; diríamos que se trata mais fricção intertribal e que é usada como teatro de operações da guerra pela influência regional entre a Arábia Saudita e o Irão.

4. Qual a dimensão do caos humanitário?

Com cerca de três quartos da sua população a viver em situação de pobreza, o Iémen é há muito tempo o país mais pobre do mundo árabe e a crise humanitária com que se tem defronta é considerada uma das piores do mundo.

Segundo dados das agências internacionais os casos suspeitos de cólera ultrapassaram, em 2020, os duzentos mil casos. O impacto da pandemia de COVID-19 é mais difícil de avaliar, pois não existem dados abrangentes e fiáveis sobre o número de casos. Cerca de doze mil casos foram reportados à OMS, contudo os especialistas saúde pública dizem que a contagem real é provavelmente muito maior. Além disso, muitos países reduziram a ajuda crítica ao Iémen em plena pandemia, o que levou as Nações Unidas a reduzir as rações alimentares para os cerca de oito milhões de iemenitas em Janeiro de 2022. Três em cada quatro iemenitas necessitam de ajuda humanitária e proteção, e quatro milhões refugiados internos, de acordo com a agência de refugiados da ONU.

A situação piorou ainda mais com a situação de bloqueio terrestre, marítimo e aéreo imposto pelas forças da coligação, que obstruiu o fluxo de fornecimentos vitais de alimentos e medicamentos e ajudou a aumentar os preços de bens essenciais. Sob o cessar-fogo de 2022, os preços caíram significativamente, mas com o terminus da trégua, muitos iemenitas temem que os custos elevados voltem. O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas estima que mais de 370 mil pessoas tenham já perecido como resultado da guerra, ou causas indiretas, como a falta de alimentos, água e serviços de saúde, causando quase 60% das mortes.

Além disso, as Nações Unidas descobriram que tanto os Houthi como as forças da coligação atacaram conscientemente alvos civis, violando o Direito Internacional. Isto inclui a destruição de um hospital gerido pelos Médicos Sem Fronteiras em 2015. Tortura, detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados estão entre outros alegados crimes de guerra perpetrados por ambos os lados.

Conclusões

A par com o infindável conflito entre Israel e a Palestina, a agressão russa na Ucrânia, entre outras situações que flagelam ‘o nosso mundo’, a questão esquecida do Iémen volta a ser colocada na agenda mundial em virtude das potenciais ameaças que os ataques por forças Houthi podem causar à segurança económica mundial.

O Fim da História, preconizado por Francis Fukuyama, e a própria ideia de um futuro pacífico e de cooperação entre as nações conforme Kant sonhou, ainda está para acontecer.

Certo é que as manobras de retaliação levadas a cabo por forças dos EUA e do Reino Unido contra os ataques Houthi a navios mercantes que navegam pelo estreito Bab el-Mandeb, recolocaram na agenda mundial, pelo fator vital fator estratégico posição, sofrimento que o povo iemenita tem sido alvo nos últimos anos.

Por último, reiteramos que o que se passa no Iémen em termos conflituais é mais fricção intertribal no seio do Islão e cujo território é usado como teatro de operações da de uma “guerra por procuração” pela influência regional entre a Arábia Saudita e o Irão.

Fontes e bibliografia

Kali Robertson, Yemen’s TragedyWarStalemate, and Suffering, Council On Foreign Relations (May 1, 2023), https://www.cfr.org/backgrounder/yemen-crisis

John Andrews, Os Grandes Conflitos Mundiais: uma análise estratégica sobre as zonas mais perigosas do nosso mundo. Lisboa: Clube do Autor (Set, 2022)

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