A literatura de viagens: a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto

O presente texto que aqui hoje reapresentamos acerca da vida e a obra-prima de Fernão Mendes Pinto (1510?-1583?), foi escrito em pleno período confinamento motivado pela pandemia de COVID-19. Ou seja, embora impedidos de viajar fisicamente pelo contexto que passamos recentemente, utilizamos este texto como forma de viajar com recurso à mente e imaginação. Deste modo, procuramos fazer uma viagem através da literatura de viagens através da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, publicada somente em 1614.

Por outro lado, apesar da minha base académica fortemente internacionalista, enquanto cidadão do mundo nascido em Portugal, devemos sempre praticar o Respeito e Compreensão com qualquer ser humano, mas sem jamais abdicar do nosso orgulho nas nossas raízes e exaltar a portugalidade.

A obra, com cerca de 880 páginas, é um testemunho precioso sobre a chegada de Portugal ao Japão; consiste num relato sobre três portugueses que aportaram no arquipélago nipónico, num encontro de civilizações que mudaria a história.

Depois dos homens de Vasco da Gama terem realizado nos finais do século XV a primeira viagem marítima que ligou a Europa à Índia, milhares de portugueses passaram a seguir regularmente a rota do Cabo da Boa Esperança e começam a percorrer terras e mares do Oriente, promovendo um autêntico encontro entre culturas. Com efeito, desde cedo os portugueses sentiram o fascínio e a admiração por essas paragens, cujo maravilhoso e exótico os encantou, embora as suas atitudes e curiosidades tivessem tido geralmente um carácter marcadamente pragmático. No regresso dessas viagens fizeram entrar regularmente no Velho Continente novos e abundantes conhecimentos resultantes das suas vivências orientais. “O descobrir constante e a ânsia de conhecer sempre mais, transformaram-se na verdadeira constante de Portugal” (Mata, 2009: 190). Partilharam então, geralmente sob forma oral, essas experiências. Alguns, contudo, procederam a minuciosas descrições escritas do conjunto de terras que os portugueses iam conhecendo nos inícios do século XVI. De entre eles destacaram-se Tomé Pires e Duarte Barbosa. Para lá destes autores outros portugueses deram as suas contribuições para a divulgação de informações sobre o Oriente através de cartas/relatórios para o rei e outras personalidades, registando as suas observações sobre as áreas que visitavam.

Por outro lado deveremos lembrar nomes de autores que, na centúria de 1500, prepararam (ou começaram a preparar) obras de vastas proporções e de âmbito geral sobre a Ásia como João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia, António Galvão, Damião de Góis, Jerónimo Osório, Diogo do Couto, Francisco de Andrade, ou trabalhos sobre regiões e acontecimentos mais particulares, como os que se ficaram a dever a autores como Damião de Góis, Francisco Álvares, D. João de Castro, etc., além de outros que permaneceram no anonimato. Algumas obras desta extensa lista de autores conheceram então (ou já no século XVII) a luz dos prelos, enquanto outras circulam sob a forma manuscrita. A literatura de viagens da época é, pois, extraordinariamente rica, muito embora, não seja o nosso intuito estudar os diversos autores e os seus interessantes relatos. O nosso objetivo é dar a conhecer alguma coisa daquilo que fomos e qual o contributo que Portugal dera nesta época tão rica de informações.

Todavia, nenhum desses homens, contudo, realizou uma obra que transmitisse e representasse as experiências vividas por milhares de aventureiros nos trabalhosos dias desse século XVI em que eles cruzaram os mares do Oriente e visitaram as mais variadas terras asiáticas. Podemos considerar por isso, que de entre as obras relativas a assuntos asiáticos do século XVI nenhuma foi tão longe como a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Com um carácter autobiográfico e refletindo de forma direta as experiências de um português que andou por muito tempo em inúmeras terras longínquas, “essa obra soube reunir todos os géneros literários então existentes, desde a crónica ao relato de naufrágios, cercos e batalhas, passando pela descritiva de terras e gentes (Geografia e Antropologia), a epistolografia, a roteirística e até as prosas doutrinais, a crítica social e o panegírico, sem esquecer o recurso à cartografia” (Pinto Garcia, 1995: 8).

Fernão Mendes Pinto foi o aventureiro que de forma mais abrangente se lembrou de passar para o papel as suas memórias, ainda que juntando-lhe e apropriando-se de vários episódios, uns vividos por outrem, outros por ele imaginados ou adaptados.

O seu nome tornou-se nos hoje bem familiar, já que, depois de ter sobrevivido a mil e uma aventuras e desventuras no Extremo Oriente, conseguiu regressar à pátria onde, na tranquilidade do lar, reviveu e recriou na memória e na pena a sua Peregrinação pelo mundo. O livro está marcado inegavelmente pelo unificador “eu narrativo”, mesmo que muitas vezes o narrador quase se apague e dissolva como cronista humilde e admirador de outros mais valorosos do que ele, como acontece com as figuras de António de Faria ou de Francisco Xavier. Tendo sido um dos muitos portugueses do século XVI que tentou a sorte na aventura do Oriente, só saiu do anonimato, libertando-se assim “da lei da morte”, porque nos deixou escrita uma obra admirável. Podemos pensar com alguma liberdade que quando acabou de rever as páginas da sua Peregrinação talvez tenha ficado maravilhado com o seu próprio “engenho e arte”, pois conseguira levar a cabo uma produção literária como uma tão grande extensão e sem paralelo na Literatura do seu tempo. Certamente mais por dificuldade em conseguir condições para que fosse viabilizada a impressão de tão volumosa obra, do que por receio de que o público pudesse pensar dessa criação, teve de a deixar manuscrita, legando o original à Casa das Penitentes em Lisboa. Segundo ele, durante a sua vida, a obra teria servido apenas para que a sua prole lesse. Quanto a nós é difícil de acreditar que tivesse levado a cabo um tão gigantesco esforço de escrita para o deixar na gaveta e no esquecimento. A verdade, contudo, é que só em 1614, passados trinta e um anos da sua morte, foi possível fazê-la sair dos prelos do mais importante impressor de Lisboa – Pedro Crasbeeck. O público ávido e curioso de notícias exóticas e sensacionais teve então acesso às páginas em que se narravam fantásticas aventuras em terras longínquas, num tempo que começava já a ser um passado algo afastado.

Nesse ano de 1614 tinha decorrido pouco mais de um século desde que o autor de tão espantosa obra havia nascido, pois, de acordo com os dados que deixou registados logo no início da Peregrinação, teria nascido entre 1509 e 1511 em Montemor-o-Velho. O primeiro facto importante de que se recordava em idade adulta era a sua vinda para Lisboa, quando aqui se quebram os escudos pela morte de D. Manuel I, o que acontecera a 13 de dezembro de 1521. Este monarca deixava então a D. João III a pesada herança de um vasto conjunto de domínios e interesses difíceis de gerir. O poderio português, disperso por um espaço imenso, só se conseguia manter graças ao enorme esforço de milhares de portugueses que todos os anos deixavam o país em poderosas armadas. Os navios transportavam homens desejosos de melhorarem as suas vidas e de sustentar a potência portuguesa à custa de mil sacrifícios e do risco dessas mesmas vidas. Eram eles que alimentavam um empreendimento gerido por um misto de sábia administração, corrupção e aventura, onde os enormes lucros se cruzavam com numerosos encargos e dívidas, e onde tudo dependia da relação entre acasos e o domínio de variadas técnicas.

O testemunho da experiência asiática que nos deixou Fernão Mendes Pinto, mesmo com a sua forte dose de romance, constitui a melhor imagem que nos ficou das vivências desses portugueses que se espalharam pelo Oriente na mira de conhecerem o Mundo, para nele enriquecerem e deixarem a marca de Portugal.

Os parâmetros da vida errante de Fernão Mendes Pinto podem ser divididos, de uma forma esquemática, em três períodos (Mata, 2009: 191).

Período I – 1509/14 a 1537

Infância e juventude vividas em Portugal. Nascido em Montemor-o-Velho levou aí uma vida difícil até aos 10-12 anos. Para tentar melhorar a sua sorte veio em finais de 1521 para Lisboa, tendo depois estadias mais ou menos longas na capital, em Santiago do Cacém e Setúbal. Neste período adquiriu uma formação cultural mínima, embora não se saiba quais possam ter sido os seus estudos. Até 1537 os conhecimentos que teve das realidades de Além-Mar devem ter sido obtidos quase exclusivamente através dos depoimentos orais daqueles que faziam a carreira da Índia. Trinta anos depois do início da viagem de Vasco da Gama também ele se deixou seduzir pelo sonho de ir para o Oriente.

Período II – 1537 a 1558

Este período concerne à vida do nosso autor no Oriente, viajando entre a Etiópia e o Japão. Partindo na armada que saiu de Lisboa a 11 de março de 1537 teve desde então uma existência acidentada, alimentada pelo desejo de enriquecer, objetivo que foi por ele logrado. Em 1554 encontrava-se em Goa com uma fortuna acumulada que rondaria os 10 mil cruzados, preparando-se para regressar a Montemor-o-Velho, onde passaria a usufruir dessa riqueza. Um súbito fervor religioso e a influência dos Jesuítas levaram-no então a ingressar na Companhia de Jesus, embora por curto espaço de tempo. Foi nessa condição, a que se juntou o estatuto de embaixador do vice-rei D. Afonso de Noronha junto do rei do Bungo, que partiu para a sua última viagem ao Japão. Nesta conjuntura foi impulsionado à escrita pelo padre mestre Belchior Nunes Barreto, tendo enviado de Malaca, em 5 de dezembro de 1554, uma carta aos irmãos da Companhia em Portugal. Aquele padre ficara impressionado com a vida que ele levara durante tantos anos e os conhecimentos que tinha alcançado sobre o Oriente, tendo pensado, por isso, que a transmissão de informações suas seria uma ação útil e importante.

No ano seguinte Fernão Mendes Pinto escreveu uma outra carta enviada de Macau ao padre Baltasar Dias, reitor do colégio da Companhia de Jesus em Goa, datada de 20 de novembro de 1555, sendo o primeiro documento que conhecemos escrito em Macau. Depois de cumprida a sua longa e dispendiosa missão ao Japão, Fernão Mendes Pinto regressou a Goa, de onde partiu para Portugal em 1558, com boas recomendações.

Período III – 1558-1583

Vida de novo em Portugal, primeiro em Lisboa e depois na sua quinta de Palença, no termo de Almada. Foi aí que escreveu a Peregrinação. No período em que se voltou a instalar em Portugal e se integrou nas realidades metropolitanas conheceu a florescente Literatura Portuguesa da Expansão, que se produzira durante a sua ausência e se continuava a publicar.

Fernão Mendes Pinto chegou a Lisboa em 22 de setembro de 1558, contando então com uns 48 anos. Depois de aguardar em vão durante quatro anos e meio o deferimento dos seus pedidos de recompensa, decidiu fixar-se numa quinta nos arredores de Almada. Baseados apenas na referência a este período, feita por ele próprio, poderemos admitir que tal estabelecimento poderá ter ocorrido por volta do mês de março de 1563. Poderia então ter casado com Maria Correia de Brito, a qual devia ser bastante mais nova que ele, pois só viria a falecer a 1 de fevereiro de 1623.

Em 1568-69, quando estava a escrever a Peregrinação, já tinha filhos, pois a eles alude logo no capítulo I e mais tarde no capítulo CV, onde diz que lhes dedica e deixa obra “por carta de A. B. C.”, o que demonstra que eles eram ainda pequenos e está de acordo com a provável data do seu casamento.

Nesta última fase da vida, acredita-se que Fernão Mendes Pinto deve-se ter preocupado fundamentalmente com a sua propriedade e em escrever a Peregrinação. Sabemos ainda que era contactado para dar informações sobre o Extremo Oriente, como veremos mais adiante. Estando na posse de um bom cabedal de conhecimentos sobre regiões exóticas, de que havia poucas informações, e sendo dotado de um fino sentido de observação e curiosidade, bem como de uma extraordinária memória e de facilidade de expressão, era natural que que se tornasse uma fonte de primordial importância para todos aqueles que se interessavam por tais terras e gentes. Uma das figuras mais notáveis que o contactou, antes de 1568, foi João de Barros, que dele recolheu informações sobre o Japão.  Aliás, a ele se deve também, segundo alguns investigadores o primeiro encontro com o Japão (Mata, 2009: 190).

O homem ativo que era Fernão Mendes Pinto não se retirou da vida pública, pois sabemos que numa fase em que já devia ter avançada a redação da sua obra, em 1572, foi juiz na vila de Almada e entre 5 de julho  de 1573 julho de 1574 foi nomeado mamposteiro dos hospitais de São Lázaro em Cacilhas e de Santa Maria em Almada, ambos dependentes da Misericórdia de Almada. A ocupação de tais cargos de responsabilidade na vida da comunidade demonstra que era considerado pessoa importante na vida do concelho de Almada. Voltou a ocupar os mesmos cargos respetivamente em 1577 e entre julho de 1578 e julho de 1579.

Neste último ano talvez já tivesse dado os últimos retoques na sua obra, a qual poderá ter sido mostrada a várias pessoas, nomeadamente a Filipe I de Portugal, entre junho de 1581 e fevereiro de 1583, período em que esteve em Lisboa. Nessa altura o monarca teria ouvido, segundo o depoimento de Francisco de Herrera Maldonado, um dos grandes admiradores de Fernão Mendes Pinto e que viria a traduzir a sua obra para castelhano, ouviu com muito interesse as histórias que Fernão Mendes Pinto lhe contara.

O interesse de Filipe I fora também afirmado poucos anos antes, na dedicatória a Filipe II de Portugal da primeira edição da Peregrinação, a qual está datada de 26 de fevereiro de 1614. Aí se afirma que: “el Rey que aja gloria sabendo que Fernam, Mendez tratua de ordenar esta historia mostrou servirse della”.

Fernão Mendes Pinto recebeu de Filipe I uma tença anual de dois moios de trigo em 15 janeiro de 1583, pouco antes deste monarca deixar Portugal. Provavelmente nunca viria a usufruir desta dádiva, pois acabaria por falecer em julho desse ano, no Pragal.

Um outro sinal importante para aferirmos a relevância com que Fernão Mendes Pinto era encarado como testemunha da história dos sucessos do Oriente, encontra-se no facto de os padres jesuítas Gianpetro Maffei (cronista), João Rebelo e Gaspar Gonçalves se terem deslocado, em outubro de 1582, até à quinta de Vale do Rosal (próximo da Charneca da Caparica) a casa de Fernão Mendes Pinto, para ouvirem o seu testemunho. Do depoimento que prestou ficou uma relação escrita, com emendas de Gaspar Gonçalves.

Para um conhecimento mais aprofundado da última fase da vida de Fernão Mendes Pinto também se deverão considerar algumas figuras ligadas à cultura portuguesa da época, que viviam em Almada entre 1563 e 1583. Entre elas destacamos Francisco de Andrade, porque Francisco de Herrera Maldonado, que parece ter visto o manuscrito original da Peregrinação, afirma que ele foi preparado para edição por aquele cronista. Embora seja difícil avaliar qual possa ter sido a intervenção de Andrade no manuscrito, pode-se admitir que ele não foi importante. Aparentemente teria consistido na divisão da obra em capítulos, e mesmo isso não é muito seguro.

Outra figura que Fernão Mendes Pinto ainda conheceu em Almada foi Francisco de Sousa Tavares, que aí faleceu em 1567. Este homem, que também andou pelo Oriente, foi testamenteiro de António Galvão, que se celebrizara nas Molucas e morrera em 11 de março de 1557. Foi o responsável pela edição póstuma do Tratado que Galvão escrevera sobre os Descobrimentos, cuja impressão se concluiu em 15 dezembro de 1563, numa altura em que Fernão Mendes Pinto já estava radicado na sua quinta. Estamos perante uma situação que tem alguma afinidade com a que poderá ter ocorrido com a edição de Fernão Mendes Pinto, pois esta poderá ter passado pelas mãos de Francisco de Andrade.

Todos os trabalhos têm uma história, a uma metodologia e Peregrinação não foge à regra (MATA: 2009: 190). O período principal em que foi redigida ela foi redigida poder-se-á situar na década entre 1568 e 1578 (última referência no último capítulo), podendo eventualmente ter sido começada a redigir entre 1563 e 1568 e retocada depois de 1578. Admitimos que Fernão Mendes Pinto em 5 de abril de 1571 estaria numa fase em que ainda não redigira grande parte da descrição China baseado no que vira, soubera ou lera.

Fernão Mendes Pinto não foi o único autor Quinhentista a ter edição póstuma da sua obra, pois o mesmo aconteceu a trabalhos de Garcia de Resende, António Galvão, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Jerónimo Corte-Real, Digo do Couto, António Pinto Pereira, o anónimo autor de Primor e Honra da vida soldadesca do Estado da Índia, entre outros, já para não falar daqueles que tiveram as suas obras manuscritas até aos séculos XVIII, XIX ou mesmo XX.

A Publicação da 1ª Edição

Antes da sua impressão e publicação, o manuscrito de Fernão Mendes Pinto fora utilizado por Jesuítas como João de Lucena.

Através de referências contidas no “Privilégio” e na “Dedicatória” sabemos que o original da obra foi legado à Casa Pia das Penitentes de Lisboa, “pela particular deuação que teue em sua vida” a essa Casa, e que foram responsáveis por tal entrega “huas filhas suas”. Em 1603 foram pedidas ao Ordinário, ao Santo Ofício e ao Paço as licenças para a sua publicação. As mudanças políticas não mostraram, de imediato, grande interesse sobra a obra de Fernão Mendes Pinto. Em 1613, as novas insistências produziram o efeito desejado e, no ano seguinte, a Peregrinação, constituída por 226 capítulos, saía dos prelos. Iniciava então a sua grande aventura para o sucesso e a imortalização do seu genial autor:

 Em que da conta de muytas estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartária, no do Sornau, que vulgarmente se chama Sião, no de Calaminhan, no de Pegù, no de Martavão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Ocidente ha muyto pouca ou nehua notícia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas partes do Oriente, & Reytor nellas universal da Companhia de Jesus.

Fernão Mendes Pinto

O livro aparece “Dirigido à Cathólica Real Magestade del Rey dom Felippe III, deste nome nosso Senhor” e “Com licença do Santo Offício, Ordinario & Paço”. De realçar de a edição ter sido feita: “A custa de Belchior de Faria Cavalyro da casa del Rey nosso Senhor, & seu Livreyro”. O livro estava dotado “Com privilégio Real”, sendo ainda de referir que no fim se informava para venda que “Està taixado este livro a 600 reis em papel”.

O título da obra não tem merecido mais que breves considerações genéricas, que andam em torno de um certo sentido religioso que a expressão Peregrinação encerra. Aceitamos que esse significado existe, mas não nos parece que tenha sido o único a determinar a sua adoção por parte de Fernão Mendes Pinto.

Previamente há ainda que perguntar se o título da obra em toda a sua extensão será da sua inteira autoria. Quanto a nós admitimos a possibilidade do autor ter deixado apenas registado no manuscrito o título Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Lembremo-nos de um título tão simples como Os Lusíadas de Luís de Camões, impresso em 1572, em vida do épico contemporâneo do genial aventureiro. Se assim aconteceu e porque tal título não seria suficientemente expressivo ou explícito sobre as matérias que nele eram tratadas, alguém – Francisco de Andrade ou pessoas ligadas à impressão – teria acrescentado, na terceira pessoa, um vasto conjunto de dados complementares, suscetíveis de informar minimamente e logo à partida o possível leitor sobre o conteúdo da obra, de forma a interessá-lo pelo livro, estimulando-lhe a curiosidade em conhecer o que se diria de terras tão exóticas, como as que nele são referidas. Quer-nos parecer que o simples título Peregrinação, que hoje se nos tornou tão familiar, não diria muito a quem visse o livro pela primeira vez.

Cremos que se pode admitir sem problemas “que o título Peregrinação se deve ao autor, pois afigura-se-nos improvável que ele tivesse deixado a obra sem tal referência e tendo-a registado ela não fosse respeitada. Aliás na licença de Fr. Manoel Coelho, datada de 25 de maio de 1603, declara-se: Este liuro cujo titulo he peregrinação de Fernão Mendes Pinto (…) e no privilégio do rei, de 6 de novembro de 1613, é dada licença para se imprimir o liuro da historia da peregrinação de Fernão Mendez Pinto” (Garcia, 1995: 13).

Outro aspeto a considerar sobre o título consiste na questão de saber se na sua origem se deverá apenas colocar uma concepção original do autor. Também aqui se nos afigura necessário uma maior reflexão sobre o assunto. Parece-nos verosímil admitir a hipótese de que ele poderá ter sido influenciado na escolha por alguma outra obra ou autor.

A génese remota do discurso da Peregrinação pode-se encontrar, contudo, ainda em pleno Oriente, como se depreende da carta escrita em Malaca a 5 de dezembro de 1554. Com efeito nela se lê:

Do decurso de minha vida e dos trabalhos, captiveiros, fomes, perigos e vaidades em que tanto sem razão gastei quorenta anos, dar-vos-ey, irmãos meus, alguma relação, o qual pode servir tudo pera confusão minha e buscar remedio de me salvar e emmendar a vida tam estragada”. Já estão declarava, a propósito do pedido de Belchior Barreto para que escrevesse o seu depoimento, que “de minha vida como de algumas cousas que ca tenho visitas lhe escrevesse mui largo; eu o farei, não como devo senão como entender

Fernão Mendes Pinto

Para uma melhor apreciação sobre a forma como entendeu escrever a Peregrinação devemos ter em conta o teor dos textos das três cartas escritas por Fernão Mendes Pinto em 1554, 1555 e 1571, sem esquecer o depoimento de 1582, sendo ainda de observar que se perderam outras cartas que escreveu na Índia e documentos que trouxe daí, descrevendo os serviços prestados à Coroa, nos quais tinha depositado a esperança de serem suficientes para garantir a sua riqueza quando chegasse a Portugal.

Qualquer estudo posterior mais aprofundado acerca da obra não poderá deixar de considerar a problemática da sua articulação com os vários aspetos contidos nos documentos que nos legou.

Conclusão

Peregrinação tem constituído e continuará a constituir um vasto campo para análises históricas e literárias e nestas breves palavras de apresentação apenas nos podemos limitar a mais algumas considerações para destacar o facto se dever reconhecer que a Peregrinação é uma obra onde o seu autor conseguiu que a realidade e a fantasia se confundissem, dando origem a uma nova realidade. É esta realidade que é apreendida pelo leitor, mesmo que ele se interrogue constantemente sobre até onde vai a História e onde começa a criação do autor. São, por isso, numerosas as dificuldades com que o leitor atento se confronta ao encarar as suas tão saborosas e pitorescas palavras. Elas vão desde os problemas de ordem cronológica (que são dos mais difíceis), até às localizações das descrições geográficas feitas pelo seu autor.

As questões essenciais que se colocam estão relacionadas, ao fim ao cabo, e desde sempre, com o grau ou fundamento da verossimilhança das suas narrativas face à realidade histórica em que Fernão Mendes Pinto se inseriu. Perante a autêntica vertigem e fascínio das descrições de viagens e aventuras do autor, ocorridas entre Malaca, China. Pegu, Sião, Japão… somos confundidos com uma procura da verdade.

Peregrinação continua e continuará a ser, por isso, um estimulante desafio à análise e à pesquisa dos investigadores, tanto mais que não nos podemos deixar de interrogar sobre o que é que ele teria andado a fazer nesses vinte e um anos em que peregrinou por todo o Oriente, com destaque para as suas partes mais remotas, de onde contava histórias que tanto impressionavam os seus ouvintes; fossem Jesuítas ou o próprio monarca – Filipe I de Portugal. Por vezes somos levados a supor como inverosímeis certas descrições de Fernão Mendes Pinto, mas quando analisamos as fontes da História dos feitos portugueses no Oriente, apesar da falta ou mesmo perda de documentos, somos constantemente confrontados com episódios muito semelhantes aos narrados pelo nosso aventureiro, parecendo alguns deles ainda mais difíceis de acreditar do que os narrados pelo próprio autor.

Face à Peregrinação, se por um lado é absolutamente necessário salientar que não estamos perante uma crónica autobiográfica (embora pareça…), deveremos, por outro lado, afastar ainda mais a ideia de podermos estar perante uma pura obra de ficção. Quanto a nós a Peregrinação é percorrida constantemente por uma tensão criadora expressa num discurso exótico e maravilhoso, que se situa entre o real e o imaginário. A narrativa e a descritiva literária, na frase fácil e saborosa de Fernão Mendes Pinto, tem a natural capacidade de nos seduzir. As suas palavras espantam-nos ao elevarem-se a um aparente realismo e ao aproximar-mos de algo que nos ultrapassa pelo seu afastamento no tempo e no espaço. Perante “o seu texto sentimo-nos sempre como que num jogo até onde não se sabe onde vai fantasia encontrar-se com a realidade, que obviamente está subjacente ao que ele conta, embora sem o rigor que se poderia exigir a um texto cronístico num sentido estrito” (Garcia, 1995: 16).

O desafio da procura da verdade, por mais que não queiramos seguir esse caminho, é uma das constantes tensões que se vive nas páginas de Fernão Mendes Pinto, tanta é a sinceridade das suas expressões e o bom enquadramento dos acontecimentos narrados no contexto da época em que ele viveu.

Há que considerar que Fernão Mendes Pinto, além de se lembrar por certo do que escrevera nas suas próprias cartas, conheceria as cartas impressas dos Jesuítas e outras obras, como as de Galeote Pereira, Frei Gaspar da Cruz e outros, sabendo por isso que havia acontecimentos vistos de formas idênticas ou diferentes, das que ele narra. Ele próprio contesta alguns historiadores e aparentemente procura apurar factos com mais rigor. Ficamos, contudo, com a sensação de que ele não pretendia contar a verdade histórica de uma forma muito rigorosa, pois encontramos diferenças entre o que diz na Peregrinação e o que se lê nas suas cartas e em outros documentos dos Jesuítas que com ele se relacionaram, ou mesmo com outra documentação. Tais confrontos revelam que Pinto teve a arte de adaptar histórias reais numa narrativa reconstruída. Além do mais não nos devemos esquecer da existência de naturais lapsos de memória do autor, os quais seriam ultrapassados por um fictício rigor de algumas indicações, sobretudo cronológicas, que se encontram incorretamente registadas, umas vezes por culpa do autor, outras, talvez, por falta do tipógrafo ou do revisor.

Num certo nível de leitura não nos deveremos preocupar com a problemática das barreiras cronológicas, mais do campo da estrita análise historiográfica da obra. Deveremos considerar por isso, como observou Aníbal Pinto de Castro, que: “É certo que a luz projetada pela presença ou ausência de verdade e de rigor na construção da diegese não seria fator despiciendo para a solução das muitas e várias interrogações que a leitura da obra pode pôr. Haverá, no entanto, outras questões de maior e mais urgente interesse a considerar, desde a determinação fundamentada dos valores estéticos, à correta e exaustiva avaliação do seu significado epocal e transtemporal, sem esquecer os problemas atinentes ao género”.

O que importa, afinal, como bem sugeriu Álvaro da Costa Pimpão, é “aspirar com deleite o aroma desta singular flor de exotismo, produto da insaciada curiosidade de um português viajante do nosso século XVI; e como ele a deixou para nos dar gosto, esforcemo-nos realmente por gozá-la em toda a sua plenitude (…)”.

Em todo o caso, Fernão Mendes Pinto é um homem que nos mostra um pouco daquilo que nós fomos e fizemos no Oriente, daí a sua importância, no contexto da literatura de viagens desta época. Longe de casa e em risco permanente Fernão Mendes Pinto é um homem que chora várias vezes.

Desde que foi impressa pela primeira vez, a Peregrinação nunca deixou de ser uma das obras mais lidas e apreciadas da Literatura Portuguesa. Como refere Joel Mata (2009: 190), a obra-prima de Fernão Mendes Pinto, até ao fim do século XVII teve dezanove edições em seis idiomas diferentes: duas edições portuguesas, sete castelhanas, três francesas, duas alemãs, duas holandesas e três inglesas, o que demonstra a grande curiosidade europeia pela cultura oriental, na qual, a obra de Fernão Mendes Pinto se transformara numa fonte inesgotável e de consulta obrigatória para os amantes do Orientalismo.

Peregrinação é uma das obras mais notáveis da Literatura Universal. A hodierna historiografia mundial vê no trabalho de Fernão Mendes Pinto um manancial inesgotável de informações quanto aos costumes dos japoneses, dos chineses e dos portugueses em terras orientais. Com efeito, é da sua pena a primeira descrição do Japão.

Para finalizarmos a nossa análise e apresentação da obra de Fernão Mendes Pinto, digamos que “mais do que o testemunho isolado e individual (…) [a Peregrinação] diz respeito a toda uma comunidade e que ajuda a melhor definir a maneira portuguesa de estar no mundo, o que equivale a dizer: definir a maneira de o Homem autenticamente se assumir na nova condição deambulatória pelo espaço geográfico e pela história”.

Obras Consultadas

MATA, Joel. 2009. Lições de História da Cultura Portuguesa. Lisboa: Universidade Lusíada Editora.

PINTO, Fernão Mendes Pinto. 1995. Peregrinação. Edição fac-similada da edição de 1614. Maia: Castoliva editora, Lda.

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