Francesco deixou pelo seu trabalho e exemplo deixou – apesar de a sua vida estar envolta em mistérios e mitos, muito por força, como refere Donald Spoto, das “ideias românticas sobre a era dos castelos, cavaleiros andantes, damas medievais e honra cavalheiresca” – uma marca, um legado que ficou gravada nos corações de todas pessoas e sintetizado no seu Testemunho de Vida.
O trabalho que aqui republicamos é um singelo render de Homenagem àquele cuja ação é um exemplo.
Nada melhor que Sentir…
Quase 800 anos após a sua morte, sucedem-se diversos trabalhos em forma de homenagem nos mais diversos ramos da Arte, desde a literatura com os escritos de Dante, que o considerou uma “luz que brilhou sobre o mundo”, passando pela pintura com os famosos frescos de Giotto.
Francisco nasceu em Assis, na península Itálica, em 1182. Filho de Pedro Bernardone e D. Joana. A sua vida foi marcada por dois momentos-chave. Por um lado, uma existência entregue aos prazeres mundanos e, por outro, após ter sido feito prisioneiro e resgatado na sequência de uma guerra que opôs Assis a Perugia. Esse conjunto de factos produziram uma série dúvidas e conflitos que o fizeram mergulhar dentro de si mesmo. Nesse processo ocorre uma reorientação com o que animava o seu espírito – a Bondade, doçura e Humildade. Iniciou, então, o seu ofício. “Francisco deu ao mundo uma vida de simplicidade, desvinculada de quaisquer posses e portanto livre para seguir os acenos da graça e o caminho que leva a Deus. (…)” O seu espírito possuía excepcional espontaneidade: corria ao encontro das pessoas com intuito de as ajudar e sem nada esperar em troca.
Ao pressentir que a sua morte estava a chegar, começa por ditar aos seus amigos, irmãos o seu testamento:
“Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: como eu estivesse em pecados, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o próprio Senhor conduziu-me entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo; e, depois, demorei só um pouco e saí do mundo. E o Senhor deu-me tão grande fé nas igrejas que orava e dizia: Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que há em todo o mundo, e vos bendizemos, porque, pela vossa santa cruz, remistes o mundo. Depois, o Senhor deu-me e dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a forma da santa Igreja Romana – por causa da ordem deles – que, se me perseguirem, quero recorrer a eles. E se eu tivesse tanta Sabedoria quanta teve Salomão e encontrasse sacerdotes pobrezinhos deste mundo, não quero pregar nas paróquias em que eles moram, passando por cima da vontade deles. E a eles e a todos os outros quero temer, amar e honrar como a meus senhores. E ajo desta maneira, porque nada vejo corporalmente neste mundo do mesmo altíssimo Filho de Deus, a não ser que o seu Santíssimo Corpo e o seu Santíssimo Sangue que eles recebem e só eles ministram aos outros. E quero que estes santíssimos mistérios sejam honrados e venerados acima de tudo e colocados em lugares preciosos. Os santíssimos nomes e palavras dele escritos, se por acaso eu os encontrar em lugares inconvenientes, quero recolhê-los e rogo que sejam recolhidos e colocados em lugar honesto. E a todos os teólogos e aos que ministram as santíssimas palavras divinas devemos honrar e venerar como a que nos ministra espírito e vida. E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém mostrou-me o que deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo revelou-me que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu o fiz escrever com poucas palavras e de modo simples, e o senhor Papa confirmou-mo. E aqueles que vinham para assumir esta vida davam aos pobres tudo o que podiam ter; e estavam contentes com uma só túnica, remendada por dentro e por fora, com cordão e calções. E não queríamos mais ter. E nós, clérigos, rezávamos o ofício com outros clérigos, os leigos diziam os Pai-nosso; e de boa vontade ficávamos nas igrejas. E éramos iletrados e submissos a todos. E eu trabalhava com as minhas mãos e quero trabalhar; e quero firmemente que todos os outros irmãos trabalhem num ofício que convenha à honestidade. Os que não sabem trabalhar aprendam, não pelo desejo de receber salário do trabalho, mas por causa do exemplo e para afastar a ociosidade. E quando não nos for dado salário, recorramos à mesa do Senhor, pedindo esmolas de porta em porta. Como saudação, o Senhor revelou-me que disséssemos: O Senhor te dê a paz. Cuidem os irmãos para não receber de modo algum igrejas, pequenas habitações pobrezinhas e tudo que for construído para eles, se não estiver como convém à santa pobreza que prometemos na Regra, hospedando-se nelas como forasteiros e peregrinos. Mando firmemente por obediência a todos os irmãos, onde quer que estejam, que não ousem pedir à Cúria Romana qualquer tipo de carta, nem por si nem por pessoa intermediária, nem em favor de igreja nem em favor de outro lugar sob pretexto da pregação, nem por perseguição de seus corpos; mas, se alguns não forem aceites, fujam para outra terra para fazer penitência com a bênção de Deus. E quero firmemente obedecer ao ministro geral desta fraternidade e a qualquer outro guardião que lhe aprouver dar-me. E quero de tal modo estar preso nas suas mãos que eu não possa andar ou agir fora da obediência e da vontade dele, porque ele é meu senhor. E, embora eu seja simples e enfermo, quero, no entanto, ter sempre um clérigo que reze para mim o ofício, como consta na Regra. E todos os outros irmãos sejam obrigados do mesmo modo a obedecer aos seus guardiães e a rezar o ofício segundo a Regra. E se forem encontrados irmãos que não rezam o ofício segundo a Regra e querem variar com outro modo ou que não são católicos, todos os irmãos, onde quer que estejam, onde encontrarem algum destes, por obediência sejam obrigados a apresenta-lo ao custódio mais próximo daquele lugar em que o encontraram. E o custódio esteja firmemente obrigado por obediência a guardá-lo fortemente como a um homem prisioneiro, de dia e de noite, de tal modo que não possa escapar das suas mãos, até que o entregue pessoalmente às mãos do seu ministro. E o ministro esteja firmemente obrigado por obediência a enviá-lo por tais irmãos, que o devem guardar de dia e de noite como a um homem prisioneiro, até que o apresentem diante do senhor de Hóstia, que é o Senhor, o protector e o corrector da fraternidade. E não digam os irmãos: Esta é outra regra; porque esta é uma recordação, uma admoestação, uma exortação e o meu testamento que eu, Frei Francisco pequenino, faço para vós, meus irmãos benditos, para que observemos mais catolicamente a Regra que prometemos ao Senhor. E o ministro geral e todos os outros ministros e custódios estejam obrigados pela obediência a nada acrescentar ou diminuir a estas palavras. E tenham sempre consigo este escrito junto à Regra. E em todos os Capítulos que realizarem, ao lerem a Regra, leiam estas palavras. E ordeno firmemente por obediência a todos os meus irmãos, clérigos e leigos, que não introduzam glosas na Regra nem estas palavras dizendo: assim devem ser entendidas. Mas, como o Senhor concedeu-me de modo simples e claro dizer e escrever a Regra e estas palavras, igualmente, de modo simples e sem glosa, as entendais e com santa operação as observais até ao fim. E todo aquele que estas coisas observar seja repleto no céu da bênção do altíssimo Pai e na terra seja repleto da bênção do seu dilecto Filho com o Santíssimo Espírito Paráclito e com todas as virtudes dos céus e com todos os santos. E eu, Frei Francisco pequenino, vosso servo, quanto posso, confirmo-vos interior e exteriormente esta santíssima bênção. Ámen”
In: Escritos de São Francisco. Rio de Janeiro: Editora Vozes
A 30 de Setembro, sentindo o seu fim cada vez mais próximo convoca os seus amigos, abençoou-os e com voz débil despediu-se deles. “Apresso-me a ir ao encontro do Senhor, e tenho confiança de que vou estar com o meu Deus, a quem servi com o meu espírito”. Entretanto, na manhã de 3 de Outubro de 1226, Francesco disse aos amigos que cuidavam dele: “Quando virdes que cheguei ao fim, colocai-me nu no chão, e deixai-me ali pelo tempo necessário para a minha última caminhada”. Pela tarde, ouviram-no a murmurar os versos iniciais do Salmo 141.
Os seus amigos acederam ao seu pedido e colocaram-no despido no chão. Dessa forma, Francisco partia exprimindo quem era e de quem era filho, prestes a renascer para a eternidade. Após um breve tempo, foi novamente vestido com a sua túnica e deposto no seu leito de palha. Bernardo e Giles, seus companheiros durante 18 anos, tomaram-lhe as mãos: “Fiz o que me cabia”, sussurrou Francisco. “Que Cristo vos ensine o que vos cabe”.
Uma radiosa luz azulada de tarde brilhou por sobre o vale e cobriu as colinas acima de Assis. Ao descrever os seus últimos momentos, os amigos de Francisco jamais esquecem o último detalhe: “Muitos pássaros, chamados de cotovias, esvoaçaram sobre o teto da cabana onde ele passou os últimos instantes, descrevendo círculos e cantando”.