Com um mundo cheio de conflitos difusos da era moderna, tem convivido ao longo dos tempos, um conflito clássico e prolongado, a guerra de Caxemira, que opõe a Índia e o Paquistão.
Entretanto, situação de Caxemira escalou significativamente desde abril de 2025 com escaramuças entre tropas indianas e paquistanesas. O ataque em Pahalgam de 22 de abril, que causou a morte de 26 turistas, reacendeu o conflito de longa data na região de Caxemira disputada pela Índia e pelo Paquistão. Nova Deli atribuiu o atentado a grupos islamitas apoiados por Islamabade e respondeu com ataques aéreos contra alvos no Paquistão e na Caxemira sob controlo paquistanês. A escalada entre os dois países está a preocupar os líderes mundiais, que temem o agudizar do conflito entre as duas potências com armas nucleares. Para compreender melhor as origens e os atores envolvidos, respondemos a algumas das perguntas mais frequentes.

É um conflito clássico porque põe frente a frente Estados, visa objetivos políticos, disputas de território, soberania e fronteiras, além de envolver forças armadas institucionais com estruturas e estratégias simétricas. Por outro lado, é ainda uma herança da era colonial, da forma como Londres negociou o fim do seu império da União Indiana. E introduziu, avant la lettre, a componente de conflitos civilizacionais, uma vez que há uma disputa religiosa entre hindus e muçulmanos.
Caxemira é um problema complexo de geografia política com génese na herança colonial britânica. O fim do império colonial na Índia deu lugar a dois Estados assentes nas diferentes identidades religiosas das populações: a Índia de maioria hindu e o Paquistão de maioria muçulmana, a partilha assentou na opção dos líderes tradicionais e Caxemira foi um caso paradigmático. Situado no extremo Norte do antigo império britânico, em plena Ásia Central, podia, sem que constituísse uma aberração geográfica, ser integrado em qualquer dos novos Estados.
O estado regional de Caxemira tinha sido criado em 1846 e a maioria da população era muçulmana mas o marajá era hindu. Com o fim da dominação colonial em 1947, prevaleceu a opção do marajá e Caxemira foi incluída na Índia, o que deu a uma imediata contestação armada dos muçulmanos apoiados pelo Paquistão. A intervenção da ONU chegar a um cessar-fogo em 1949, que se tem revelado precário, pois levou à demarcação de uma linha divisória entre a parte Norte e uma faixa ocidental controlada pelo Paquistão, e a parte Sul, controlada pela Índia, mas ambos continuam a reivindicar a totalidade do território, entretanto entra em cena um terceiro ator, a China, que anexou a faixa no Oriente da zona indiana, a que o Paquistão cedeu a parte nordeste da sua zona. Tornou-se ainda mais difícil chegar a uma solução.
Presentemente encontra-se dividida, de facto, entre o Paquistão, a Índia e a China; o futuro poderá passar por múltiplas soluções: integração total na Índia ou no Paquistão, muito provável, partilha definitiva e integração nos Estados pretendentes com uma demarcação de fronteiras aceite por todos, ou constituição de um Estado independente de Caxemira unificado.
Através do Paquistão e da questão religiosa, o problema de Caxemira está intimamente à zona de tensão de conflitos da Ásia Central.
Outra componente torna mais complexo o conflito de Caxemira, a guerra de guerrilhas, pois o Paquistão apoia um movimento guerrilheiro no território indiano. A derrota da URSS no Afeganistão terá convencido estes grupos que poderiam fazer o mesmo à Índia em Caxemira, sendo certo que desde 1993 aumentou a presença de guerrilheiros muçulmanos multinacionais, suspeitando de que terão contado com apoios da al-Quaeda e dos talibãs.
A complexidade regional do conflito de Caxemira alastrou, com a China a apoiar o Paquistão em resposta à ajuda que a Índia dá aos separatistas do Tibete, mas que choca com o apoio do Paquistão aos separatistas do Xinjiang chinês. É extremamente difícil penetrar no labirinto de apoios cruzados na Ásia Central. A China, como compensação, recebeu do Paquistão a faixa nordeste de Caxemira, o que aumentou as dificuldades de uma solução negociada.
O conflito de Caxemira subiu de patamar uma nova tipologia quando a Índia e o Paquistão se tornaram potências nucleares em 1998. Aos olhos de muitos analistas, a região tornou-se uma das mais perigosas do mundo, com a ameaça da escalada de um conflito endémico ao patamar do nuclear. O certo é que parece vir funcionando a lógica da dissuasão nuclear, que não só tem evitado o recurso a este tipo de armas como até tem reduzido os confrontos clássicos. As últimas ações têm sido obra de grupos guerrilheiros, o que indicia, localmente, da tipologia da Guerra Fria entre potências nucleares.