A Coragem de Reconhecer a Nossa Humanidade Compartilhada

No palco das comemorações do Dia de Portugal e das Comunidades 2025 em Lagos, a escritora Lídia Jorge proferiu palavras que ecoaram como um manifesto para os tempos complexos que vivemos: “Por aqui ninguém tem sangue puro”. Esta afirmação, longe de ser apenas uma observação histórica, representa um chamamento à reflexão sobre como construímos nossas identidades coletivas e individuais em um mundo marcado pela interconexão global.
A conclusão recente do curso “Competências para a Interculturalidade”, oferecido pela plataforma NAU em parceria com o INA IP, em conjunto com um aprofundamento dos temas abordados UFCDs 0344 e 11018 constantes no CNQ do IEFP, ofereceu-me um arcabouço teórico e prático que se alinha perfeitamente com o discurso de Lídia Jorge. Neste artigo, exploramos como essas três experiências formativas convergem para um entendimento mais profundo sobre as dinâmicas interculturais que moldam nossa sociedade atual.
Competências para a Interculturalidade: Ferramentas para Navegar na Diversidade
O curso “Competências para a Interculturalidade” parte de uma premissa fundamental: a convivência com a diversidade cultural não é um obstáculo a ser superado, mas sim uma oportunidade valiosa para diálogo, aprendizagem e desenvolvimento pessoal e social. Durante as quatro horas de formação, distribuídas em quatro módulos complementares, tivemos a ocasião de explorar conceitos fundamentais que transformam a maneira como percebemos as interações interculturais.
Diversidade Cultural e Interculturalidade: Além da Tolerância
O primeiro módulo do curso estabelece as bases para compreendermos que a interculturalidade vai muito além da simples coexistência passiva. Trata-se de um processo ativo de construção de relações baseadas no respeito mútuo e na valorização das diferenças como fonte de enriquecimento. Esta perspectiva ressoa com a observação de Lídia Jorge de que “cada um de nós é uma soma do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco, do negro e de todas as outras cores humanas“.
Cultura e Identidade: Construções Dinâmicas
O segundo módulo aprofunda a compreensão sobre como cultura e identidade estão intrinsecamente ligadas, mas nunca são estáticas ou monolíticas. Este entendimento dialoga diretamente com a afirmação da escritora de que “a falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade“. Somos, como indivíduos e como sociedade, o resultado de múltiplas influências culturais que continuam a se transformar através do tempo.
A Desconstruir Estereótipos e Preconceitos
O terceiro módulo aborda um dos maiores desafios nas relações interculturais: a identificação e desconstrução de estereótipos e preconceitos que funcionam como barreiras invisíveis à comunicação efetiva. Esta parte da formação oferece ferramentas práticas para reconhecer e superar vieses inconscientes que podem prejudicar interações interculturais. Lídia Jorge, ao mencionar que “em pleno século XVII, cerca de 10% da população portuguesa teria origem africana”, desafia precisamente os estereótipos sobre a composição étnica da sociedade portuguesa ao longo da história.
Competências Interculturais na Prática
O módulo final integra os conhecimentos anteriores em um conjunto de competências aplicáveis no quotidiano profissional e pessoal. Três orientações fundamentais emergem: para a inclusão, para o serviço público e para a colaboração. Estas orientações representam não apenas habilidades técnicas, mas uma postura ética diante da diversidade humana, alinhando-se com o alerta de Lídia Jorge contra “a fúria revisionista que assalta pelos extremos [sobretudo à direita] nos dias de hoje”.
UFCD 0344: Cooperação, Parcerias e Redes num Mundo Diverso
O aprofundamento na Unidade de Formação de Curta Duração (UFCD) 0344 – “Cooperação, parcerias e redes”, oferecido pelo IEFP, complementa perfeitamente os conhecimentos adquiridos sobre interculturalidade. Com uma carga horária de 25 horas, esta formação expandiu a nossa compreensão sobre como estabelecer e gerir relações colaborativas em ambientes cada vez mais diversos e complexos.
Alianças Estratégicas em Contextos Multiculturais
Um dos pontos centrais da UFCD 0344 é o reconhecimento das diferentes formas de cooperação e o desenvolvimento de competências para apoiar alianças, consórcios e parcerias. Num mundo onde, como alertou Lídia Jorge, existe o perigo de “figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”, torna-se, pois, essencial desenvolver estruturas cooperativas sólidas baseadas em valores compartilhados.
A Cultura de Confiança como Base para a Cooperação
A UFCD enfatiza a importância da “cultura de confiança” como fundamento para qualquer forma cooperativa bem-sucedida. Este conceito ganha nova dimensão quando consideramos as relações interculturais, onde a confiança precisa ser construída apesar de possíveis diferenças em perspectivas e valores. O alerta de Lídia Jorge sobre como “o escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende” destaca a urgência de restaurar a confiança nas instituições e nas relações sociais.
Gestão de Alianças e Parcerias em Ambientes Diversos
A formação aborda técnicas específicas para a gestão de alianças, consórcios e parcerias, considerando tanto os benefícios quanto os riscos envolvidos. Estas ferramentas são particularmente valiosas em contextos interculturais, onde a diversidade de perspectivas pode ser tanto um desafio quanto uma vantagem competitiva. Quando Lídia Jorge afirma que “somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou“, ela lembra-nos que precisamos reconhecer as complexidades históricas que moldaram nossas relações atuais.
O Discurso de Lídia Jorge: Um Apelo à Consciência Histórica e à Responsabilidade Coletiva
O discurso proferido por Lídia Jorge nas comemorações do 10 de Junho em Lagos representa um momento significativo de reflexão nacional sobre identidade, história e responsabilidade coletiva. As suas palavras, carregadas de profundidade literária e consciência histórica, oferecem um contraponto necessário aos discursos simplistas que ganham espaço no debate público contemporâneo.
A Falácia da Pureza e a Realidade da Miscigenação
O ponto central do discurso de Lídia Jorge – “por aqui ninguém tem sangue puro” – desconstrói narrativas nacionalistas baseadas em concepções míticas de pureza étnica ou cultural. Ao afirmar que “cada um de nós é uma soma do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco, do negro e de todas as outras cores humanas”, a escritora estabelece um facto histórico e antropológico que desafia visões essencialistas sobre identidade nacional. Esta perspectiva alinha-se perfeitamente com os princípios de interculturalidade abordados no curso da plataforma NAU.
O Perigo dos “Loucos” no Poder: Literatura como Profecia
Particularmente impactante foi a referência de Lídia Jorge a Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores que perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”. Citando Shakespeare em “Rei Lear” – “é uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos” – a escritora estabelece um paralelo inquietante entre as observações desses clássicos literários e os riscos contemporâneos à democracia e à convivência pacífica.
Lagos como Símbolo de Memória e Transformação
A escolha de Lagos como palco para as comemorações ganha significado especial no discurso de Lídia Jorge. Com efeito, a cidade, que desempenhou papel central na expansão marítima portuguesa e no comércio de escravos, representa tanto as glórias quanto as sombras da história nacional. Segundo a escritora, “Lagos expõe a memória desse remorso” e “mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita”, exemplificando como lugares históricos podem funcionar como espaços de reflexão crítica e transformação.
Integração de Conhecimentos: Aplicações Práticas para Consultoria e Formação
A convergência entre o curso de “Competências para a Interculturalidade”, as restantes formações constantes no nosso CV e as reflexões inspiradas pelo discurso de Lídia Jorge oferece um rico arcabouço teórico e prático para o nosso trabalho de consultoria política e formação profissional. Enquanto especialistas nessas áreas, podemos aplicar esses conhecimentos integrados de diversas maneiras.
Consultoria Política Culturalmente Sensível
Na RMP Consulting Services, a incorporação de competências interculturais na consultoria política permite-nos ajudar os clientes a desenvolver estratégias que reconheçam e valorizem a diversidade das comunidades afetadas pelas suas políticas. Este enfoque alinha-se com a nossa missão de identificar erros políticos, oportunidades e preparar os clientes para participarem no processo de criação de políticas.
Formação Profissional com Perspectiva Intercultural
Os conhecimentos sobre cooperação, parcerias e redes, quando combinados com uma perspectiva intercultural, potencializam a nossa capacidade de oferecer formação profissional verdadeiramente transformadora. Isto é particularmente relevante no atual contexto global, onde, como alertou Lídia Jorge, enfrentamos o desafio de resistir à “fúria revisionista que assalta pelos extremos”.
Construção de Parcerias Baseadas em Valores Compartilhados
A UFCD 0344 fornece ferramentas práticas para o estabelecimento de consórcios e parcerias, enquanto o curso de “Competências para a Interculturalidade” oferece o enquadramento ético para que essas colaborações se baseiem no respeito mútuo e na valorização da diversidade. Este enfoque torna-se especialmente relevante quando consideramos o alerta de Lídia Jorge sobre a cultura digital que subverte “o princípio da exemplaridade”.
Reflexões Finais: Por uma Cultura de Diálogo e Reconhecimento Mútuo
A integração entre os conhecimentos adquiridos no curso “Competências para a Interculturalidade”, na UFCD 0344 constante da formação Internacionalização – Fundamentos e as reflexões inspiradas pelo discurso de Lídia Jorge aponta para um caminho promissor, ainda que desafiador. Num mundo onde, como alertou a escritora, “os cidadões hoje regrediram à subtil designação de seguidores e os seus ídolos são fantasmas”, torna-se imperativo desenvolver competências que nos permitam navegar na complexidade com integridade e visão crítica.
O reconhecimento de que “por aqui ninguém tem sangue puro” não representa, como alguns poderiam interpretar erroneamente, um enfraquecimento da identidade nacional. Bem pelo contrário, oferece uma base mais sólida e honesta para a construção de uma identidade coletiva que abraça sua complexidade histórica e cultural. Como profissionais de consultoria política e formação, temos a responsabilidade de incorporar esta perspectiva no nosso trabalho diário.
As competências interculturais, combinadas com habilidades de cooperação e construção de parcerias, representam ferramentas essenciais para enfrentar os desafios contemporâneos, desde a polarização política até as crescentes tensões étnicas e culturais. O discurso de Lídia Jorge devem relembrar-nos que a literatura e o pensamento crítico continuam a ser faróis indispensáveis nestes tempos conturbados.
Como concluiu a escritora no seu discurso, “é contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as comunidades portuguesas usem o nome de um poeta por patrono”. Da mesma forma, vale a pena que continuemos a investir no desenvolvimento de competências interculturais e cooperativas, reconhecer que a nossa humanidade compartilhada, em toda a sua complexidade e diversidade, é nosso recurso mais valioso.
Que reflexões este artigo desperta em si? Como podemos aplicar competências interculturais e cooperativas no atual contexto político? Compartilhe seus pensamentos nos comentários.