
Num paÃs que se quer moderno, avança-se para trás. É difÃcil ler a notÃcia: “Conteúdos sobre sexualidade quase desaparecem da disciplina de Cidadania” (Expresso, 21/07/2025). DifÃcil, porque não é uma mera alteração curricular. É um retrato sombrio de uma sociedade refém de ideias negacionistas, em que o progresso e a decência cedem ao populismo, à ignorância e obscurantismo.
O Silêncio Que Grita
Imaginem o silêncio ensurdecedor numa sala de aula. Imagina a Maria, 13 anos, vÃtima de toques inapropriados por alguém em quem confiava, sem saber que podia dizer não, sem saber onde pedir ajuda 😰🆘. Imagina o João, a quem disseram que era “errado” sentir-se diferente, e que nunca ouviu da boca de um adulto que a diversidade é normal. Imagina a Ana, 14 anos, grávida sem querer, porque ninguém lhe explicou as opções, porque tudo o que tinha era vergonha e incerteza.
O que antes se falava na escola agora esvai-se por entre linhas burocráticas, para agradar a quem não quer saber do amanhã destas crianças. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação cedeu, não à evidência cientÃfica, mas ao ruÃdo das ideologias que desprezam a ciência e os direitos humanos.
Educação Sexual: Uma “Vacina” Contra a Ignorância
Educação sexual é muito mais do que falar de quem simplesmente sexualidade. É uma ferramenta comprovada para:
- Prevenir gravidezes indesejadas
- Reduzir doenças sexualmente transmissÃveis (DST)
- Combater o abuso sexual e o bullying
- Proteger os mais vulneráveis
- Eliminar a vergonha de ser diferente
- Ensinar o respeito, consentimento e igualdade
Os dados são claros e estão disponÃveis para quem quiser ver. Só não vê quem não quer. Privar as nossas crianças — sobretudo as que menos têm — de acesso a esta informação é anti-ciência e profundamente desumano.
O Preço da Ignorância
Esta decisão não é neutra. Ela tem um preço — pago em gravidezes indesejadas entre jovens, em casos de abuso silenciados, em bullying perpetuado, em vidas marcadas pela culpa e pelo medo. Quem mais sofre? Aqueles que não têm recursos para buscar ajuda fora da escola.
Responsabilizamos, desde já, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação por cada criança afastada da sua dignidade, por cada jovem perdido num labirinto de preconceito e silêncio. Ignorar a ciência, desprezar a proteção dos mais frágeis é o maior retrocesso de todos.
Acorda, Portugal.
Este tempo só avança se formos muitos a fazer perguntas. A Ordem dos Psicólogos Portugueses classifica esta medida como um “retrocesso pedagógico e social” que “contraria a evidência cientÃfica”. A bastonária Sofia Ramalho alerta que esta decisão é “altamente prejudicial ao desenvolvimento das nossas crianças e jovens“, deixando-os mais vulneráveis ao abuso, à violência no namoro e à discriminação já evidenciados neste texto.
Deste modo, pais, professores, cidadãos — não deixemos que o silêncio tome conta. A ignorância imposta hoje será a dor de muitas vidas amanhã. A educação sexual é vacina, é escudo, é libertação.
Quando uma sociedade se foca apenas no útil, no material e no número, abandonando os valores espirituais e as grandes questões morais, abre-se espaço para o obscurantismo e o retrocesso civilizacional